A formação dos conceitos que conduzem ao bem
31 de janeiro de 2016 | Francisco Liberato, Rosângela Xavier, Vera Sousa e Vera Alvarenga

Todos nós temos uma ideia do que seja uma árvore. Ao longo de toda a nossa vida, vimos uma infinidade de árvores com diferentes portes, troncos, folhas, flores, frutos em muitos casos, em alguns até perfumes. É uma ideia, um conceito. Entretanto, esse conceito não está associado a uma árvore específica, física. É uma imagem mental que engloba todas as árvores do mundo. Começa a se formar desde a mais tenra infância, e vai se ampliando de acordo com as novas observações e conhecimentos que vamos adquirindo sobre essa realidade universal da Criação: a árvore. Isso ocorre conosco em relação a todas as outras coisas que nos cercam, bem como em relação a tudo aquilo que faz parte de nossa vida moral e espiritual.

Isso mostra de forma muito clara que os conceitos não são estáticos. Ao contrário, devem ser superados sempre, dia após dia, minuto após minuto, e é assim que vai acontecendo a evolução de cada ser humano. Embora a ideia de árvore seja uma realidade imutável e universal, ela o é no seu arquétipo divino. Na experiência individual de todos nós, ela existe de acordo com a extensão do conceito que cada um conseguiu formar. Pode-se apreciar, por isso mesmo, a grande importância que tem, desde a infância, a formação consciente dos conceitos que conduzem ao bem.

 

NOSSO CONCEITO DE DEUS DEVE EVOLUIR

Segundo a Pedagogia Logosófica, os conceitos desempenham papel fundamental na vida humana. Verdadeiros ou equivocados, são eles que regem a vida e determinam a conduta que cada um adota no seu dia a dia. E nos diz mais:

“Desde faz muito tempo, a humanidade se abandonou a uma espécie de indiferença em relação a tudo quanto em verdade justificasse sua própria existência. Distanciou-se do verdadeiro conceito que se deve ter das Leis Universais, desviando-se, pode-se dizer, de todos os caminhos que Deus abriu, como rotas propícias, aos homens que quisessem se acercar a Ele.”

 

Mas, afinal o que é um conceito? Vejamos:

Conceito:  Do latim conceptus, do verbo concipere, que significa “conter completamente”, “formar dentro de si”. É aquilo que a mente concebe ou entende: uma ideia ou noção, representação geral e abstrata de uma realidade, seja ela física ou metafísica.

 

Para a Pedagogia Logosófica, todo conceito que não se modifica se transforma num preconceito, e os preconceitos acorrentam as almas à rocha da inércia mental e espiritual. Entretanto, quantos conceitos se mantêm inalterados ao longo de toda uma vida!

É o caso, por exemplo, do conceito de Deus. Com muita frequência, a inteligência não quer se deter sobre ele, por considerá-lo inacessível, ou então uma matéria da qual não se deve ocupar. Apesar disso, nenhuma outra questão inquietou tanto o espírito humano, em todas as épocas, do que a grande questão de Deus. À semelhança do que ocorreu e ocorre com a nossa ideia de árvore, não deve evoluir sempre a nossa ideia de Deus? Por que essa resistência que paralisa a evolução humana?

 

O HOMEM PODE SER SEU PRÓPRIO REDENTOR

E aqui vem ao caso perguntar: E como deve ser encarada esta questão na educação de nossos alunos?

Nas escolas do Sistema Logosófico de Educação, esse é um aspecto que merece especialíssima atenção dos docentes. A formação de um conceito vai-se fazendo gradualmente, por meio de diversos recursos pedagógicos que possam favorecer o entendimento da criança: imagens, analogias, histórias, relatos, etc., sempre ao nível de cada faixa etária.

Nesse processo de assimilação do conceito, a criança é estimulada a observar-se internamente e identificar em si mesma os diversos aspectos vinculados a ele, ao conceito. Ao mesmo tempo, são-lhe dadas inúmeras e sucessivas oportunidades de levá-lo à prática de forma lúcida e deliberada. É o trabalho que se faz para desenvolver a consciência. A criança vai recebendo, assim, de forma amena e natural, os originais conceitos que emanam da concepção pedagógica da Logosofia.

Durante o recreio, um aluno de 9 anos havia jogado propositalmente a bola no rosto de um colega. Indagado sobre como avaliava sua conduta com aquele colega, reconheceu que fora ruim, errada. Para que seu juízo se aprofundasse mais na análise, foi-lhe perguntado por que sua atitude tinha sido ruim. Em sua resposta, mostrou que tinha consciência de que havia infringido um princípio de respeito que deve sempre estar presente em todas as nossas relações com os semelhantes. Finalmente, foi-lhe colocada esta questão: O que você pode fazer para consertar esse erro? Sua primeira resposta foi: Não devo fazer isso de novo.

A Logosofia, ao apresentar sua concepção de ser humano, mostra que, entre outras grandes prerrogativas, o homem pode ser seu próprio
redentor. Sendo responsável pela condução de sua vida e pela edificação de seu destino, ele é também responsável pelos erros que comete. A redenção dos próprios erros é tarefa inalienável de cada indivíduo, intransferível, que se realiza com o aperfeiçoamento de suas condições internas, mediante um processo de evolução consciente.

 

A PRÁTICA DO BEM REQUER SEGURANÇA NOS CONCEITOS

O aluno que jogou a bola havia compreendido o princípio da redenção de si mesmo: começar por não repetir o erro. Sua resposta recebeu a aprovação do docente, que fê-lo recordar-se do esforço gradual e voluntário necessário para substituir os erros por acertos. E seu esforço para cultivar o respeito e atuar com ética não deveria se limitar àquele colega, mas ser estendido a todas as demais pessoas, do contrário não seria um valor real em sua vida.

Porém, ainda havia mais a ser feito. Foi-lhe perguntado: Que atitudes de bem você poderá ter para com seu colega, a fim de compensar sua atuação equivocada? Ele pensou em três coisas: pedir desculpas, convidá-lo para brincar em outros recreios e ajudá-lo, caso fosse alvo de brincadeiras desrespeitosas por parte de outros colegas. Novamente recebeu a aprovação do docente, que o estimulou a levar à pratica, imediatamente, o que havia pensado. E ele o fez, começando por se desculpar perante o colega. Algumas semanas depois, o docente recebeu dessa criança um retorno sobre seu esforço para praticar o bem em relação ao outro. Disse que alguns alunos queriam jogar água dentro da blusa daquele colega, mas que ele interveio em sua defesa.

Com esse novo conceito de redenção, a criança, o adolescente e o adulto vão aprendendo a encarar os erros como princípios de acertos, sem arrependimentos que envergonhem e deprimam, mas sim com confiança em sua própria capacidade de autorredenção. Aprendem a cultivar o bem começando por fazê-lo a si mesmos, sempre por meio do aperfeiçoamento, para depois estendê-lo aos demais.

A prática do bem, do verdadeiro bem, requer imprescindivelmente segurança em relação aos conceitos que nortearão essa prática. Segurança que somente se conquista mediante a aquisição de conhecimentos que a fundamentem, conhecimentos de natureza superior, metafísica. São esses os conhecimentos em que se baseia a Pedagogia Logosófica e que nos possibilitam a formação consciente dos conceitos.

 

O CULTO AOS CONCEITOS E A FORMAÇÃO MORAL DOS HOMENS

Vejamos, agora, algo sobre o relativismo cultural. Com certa frequência, ouvimos dizer que os conceitos são relativos, ou seja, que variam de acordo com a cultura, com o país e até mesmo com a região, em um mesmo território. Quantas vezes o que é considerado inadequado e fora dos padrões morais num lugar é aceito como normal ou natural em outro? E é comum, dentro de um único grupo social, que nos defrontemos com diferentes modos de conceber uma mesma realidade.

Tomemos, como exemplo, o conceito de vida. Para uns, a vida é simplesmente o espaço entre o nascimento e a morte;  para outros, é um “vale de lágrimas”; para outros, é algo sem sentido e finalidade, e “só se leva desta vida a vida que a gente leva”, como dizem. Há os que defendem o conceito do carpe diem, de Horácio, que consiste no desfrute dos prazeres de cada momento sem preocupação com o amanhã. E assim por diante…

Caberia, então, perguntar se existiria um conceito universal sobre a vida.

Voltemos ao exemplo da árvore, aqui citado. A árvore é uma realidade da Criação e, como tal, é universal, mas o conceito que dessa realidade cada um de nós tenha é o que muda, o que evolui, não importa se ele é hoje amplo ou estreito. Porém, para nos aproximarmos e não nos afastarmos da realidade universal encerrada no conceito de árvore, deveremos fazer com que sua conceituação dinâmica e de progressão infinita se forme por meio do conhecimento, isto é, conscientemente.

Esse mesmo princípio se aplica a tudo. No campo moral e espiritual, em que os conceitos se baseiam muitas vezes em crenças e dogmas, é onde se promove a maior insegurança a respeito de princípios, conceitos e valores. Não tendo sido construídos conscientemente, estes ficam muitas vezes à mercê do que é inculcado na infância, veiculado pela mídia, ou imposto por correntes de pensamento as mais diversas.

Para a Pedagogia Logosófica, temos que:

“A causa principal de toda desorientação reside no desvio dos conceitos. Quando o homem se afasta deles, imediatamente vem a desorientação, que é a que impede que a visão interna advirta a ausência de segurança no rumo tomado, e, da mesma forma, o extravio na ação de preencher o vazio deixado pelos conceitos. O culto dos conceitos é o que forma o patrimônio moral dos homens.”

A partir dessa afirmativa, podemos concluir que as Leis Universais que governam toda a Criação são a referência que temos para avaliar se um conceito é verdadeiro ou não. O conhecimento paulatino dessas Leis constitui, para a Pedagogia Logosófica, um dos grandes passos evolutivos do ser humano, com extraordinário reflexo no conteúdo e forma da ação pedagógica que incorpore essa extraordinária concepção.

 

Francisco Liberato Póvoa Filho.

Diretor-Geral do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Bacharel licenciado em Geociências pela UFMG. Pós-graduado em Marketing pela Universidade Paulista.

Rosângela Xavier.

Coordenadora Pedagógica do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Licenciada em Pedagogia pela UEMG.

Vera Lúcia Amaral de Sousa.

Assessora Educacional do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Graduada em Letras, pela UFMG.

Vera Tamberi Alvarenga.

Assessora Educacional do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Graduada em licenciatura de Química pela UFMG


 
 

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