Uma concepção de educação baseada no conhecimento de si mesmo
29 de janeiro de 2016 | Eduardo Fernandes Barbosa

Uma linha pedagógica pode ser vista como o estudo de ideais educacionais, segundo uma determinada concepção de vida, e dos meios mais eficientes para realizar estes ideais. Neste sentido, toda pedagogia apóia-se em uma concepção de ser humano e de mundo, como base para a construção de seus ideais educacionais.

A Pedagogia Logosófica fundamenta-se na Logosofia, ciência que traz concepções originais sobre o homem, a vida, Deus, o Universo e suas Leis. Neste artigo, são focalizados aspectos da concepção de homem ensinada pela Logosofia e como esta concepção apóia uma educação baseada no conhecimento de si mesmo, sendo efetiva a partir da realização desse conhecimento pelo próprio educador.

Para a Logosofia, o ser humano possui uma configuração biopsicoespiritual, ou seja, além de sua natureza biológica ou

física, possui os mecanismos psicológico e espiritual. Nessa concepção, a articulação harmônica e equilibrada das partes psicológica e espiritual cumpre funções importantes no processo de aprendizagem ao longo da vida.

Um dos objetivos da Pedagogia Logosófica é favorecer a formação integral do educando, estimulando e orientando o

desenvolvimento da inteligência e da sensibilidade em todas as fases do processo educativo da criança, do adolescente e do jovem. Um dos resultados mais importantes da aplicação dessa linha pedagógica é o desenvolvimento harmônico dos organismos físico, psicológico e espiritual do indivíduo. Para alcançar esses resultados, o educando é estimulado a cultivar e desenvolver seu potencial intelectual e sensível.

No aspecto intelectual, o conjunto das faculdades que formam a inteligência, com suas funções de pensar, entender, observar, raciocinar, recordar, imaginar, refletir, etc., deve funcionar na plenitude de seu potencial. O trabalho pedagógico que se realiza com as crianças e adolescentes nas escolas que aplicam a Pedagogia Logosófica tem por finalidade promover o desenvolvimento equilibrado dos recursos da inteligência, e não apenas da memória e da imaginação, como geralmente ocorre, com maior ou menor ênfase, na educação tradicional.

No aspecto sensível, a sensibilidade é outro pólo importante da configuração psicológica humana. Neste campo, o trabalho docente concentra-se em ensinar os alunos a fazerem uso dos recursos da sensibilidade e dos sentimentos. O conceito que orienta esta forma de ensinar é o de que não basta ser inteligente; é necessário ser inteligente e sensível, pois os sentimentos – como o de gratidão, de afeto, de amizade, de generosidade, simpatia e respeito, entre outros – são fatores equilibrantes da conduta e facilitadores de uma convivência saudável e de entendimento mútuo. Assim, o desenvolvimento equilibrado da mente e da sensibilidade favorece a formação de seres mais felizes, que se relacionam bem consigo mesmos, com os semelhantes e com o mundo em que vivem.

A Pedagogia Logosófica é uma concepção de educação que requer a participação ativa e consciente do educador nos processos de ensino e de aprendizagem. Portanto, a aplicação desta pedagogia na educação da criança e do adolescente depende da realização, pelo educador, de processos que conduzem ao conhecimento de si mesmo, ou seja: o domínio do próprio mecanismo psicológico e mental.

Assim, o conhecimento da realidade interna do educador, de agentes causais do comportamento, dos fatores que movem a vontade e dos recursos mentais e sensíveis da psicologia humana é condição para práticas educativas orientadas pela Pedagogia Logosófica. Por isso, o ponto de partida para tornar efetiva a prática desta linha pedagógica é a formação docente que habilite o professor e o aluno a participarem, de forma voluntária e consciente, dos processos de ensino e de aprendizagem. Isso vale tanto para o ensino e aprendizagem dos conteúdos curriculares oficiais, como para o processo de formação consciente dos valores mentais, morais e espirituais na vida do educando.

A aplicação desta concepção de educação implica identificar e ter domínio dos elementos que configuram a psicologia

humana. Assim, quando nos propomos, por exemplo, incentivar o aluno a pensar, alguns dos requisitos para que o

docente tenha êxito neste objetivo são: ter experimentado o esforço que representa o ato de pensar com uma finalidade específica; ter identificado os fatores que favorecem e os que dificultam o exercício desta função da inteligência; ter compreendido o que representa o uso da função de pensar nos diversos aspectos da vida, especialmente naqueles que se aplicam à realidade que vive a criança ou o adolescente; etc.

Atuando dessa forma, o docente se habilita para apresentar ao aluno algo concreto que faz parte de sua experiência,

reforçando a ação docente com o incentivo dos resultados que ele mesmo já experimen- tou e cujo processo de realização lhe é familiar. Essa forma de atuar difere muito da posição docente que se limita apenas a repetir o que foi estudado ou aprendido de forma intelectual sobre a psicologia do aluno, sem vinculação com a própria realidade psicológica.

Aplicar uma proposta inovadora como esta requer um corpo docente disposto a especia- lizar-se em certos cultivos, pois a educação a ser praticada é, antes de tudo, uma educação pelo exemplo. Portanto, o professor há de se dispor a realizar em si mesmo aquilo que queira que os alunos venham a realizar, em termos dos valores pedagógicos propostos.

Neste contexto, a aplicação da Pedagogia Logosófica requer um processo de formação docente fundamentado em conceitos e princípios claramente definidos, sobre os quais a Logosofia fartamente se pronuncia, devendo todos eles ser vivenciados e experimentados pelo educador.

Os resultados da aplicação da Pedagogia Logosófica na educação da infância e da adolescência vêm-se eviden- ciando

na formação de jovens e adultos com marcada disposição para o estudo, para a aprendizagem, capazes de pensar por conta própria, de ser livres na mais ampla acepção da palavra. São pessoas que mostram valorizar a vida com noção clara de sua transcendência, de sua importância para si e para os demais, conduzindo-a com acerto, equilíbrio e sensatez e colaborando ativa e conscientemente para a melhoria da sociedade em que vivem.

 

Eduardo Fernandes Barbosa

*Doutor em Ciência da Computação/ Professor Associado da UFMG / Autor de livros sobre Projetos


 
 

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