Reflexões sobre o desafio de educar as novas gerações
31 de janeiro de 2016 | Liara Sia Moreira Salles

Educar as novas gerações constitui, cada vez mais, um desafio, pela complexidade de fatores que interferem no dia-a-dia das crianças e jovens e – por que não? – também no cotidiano dos pais e professores. Afinal, estamos num período de franca decadência de conceitos e valores em todo o mundo…

O desafio de educar nossas crianças e jovens é, pois, altamente instigante! Com ele, a vida nos traz inúmeros motivos para observar, pensar, refletir, aprender sempre. Vida é luta que move à ação, à conquista, e, por isso mesmo, o desafio de educar adquire maior transcendência e se transforma em uma grande oportunidade.

Nossos filhos ou alunos, como seres humanos, valem muito mais que qualquer outro bem material. Ninguém diz o contrário. Sendo assim, vale indagar: se tanto nos organizamos para prover nossos lares e nossas escolas dos itens materiais mais apropriados, como temos nos organizado para educar nossos filhos e alunos? Que temos feito para ir além dos aspectos físicos ou da formação acadêmica, atendendo ao educando em sua configuração física, psicológica e espiritual?

Onde estamos? Temos de saber sobre nós mesmos. Onde estamos nós, educadores, e onde está a criança ou o jovem que queremos educar? Segundo sejam nossa capacidade, nossos recursos e, com base nisso, nosso empenho na ação educativa, assim será a influência que poderemos exercer sobre o educando.

Para a Logosofia, essa questão abre o cenário da verdadeira educação, e, para atendê- la, precisaremos de um plano de ações em todos os sentidos.

Três pontos são essenciais e se destacam neste plano:

1.o) Aonde queremos chegar–qual é a imagem do ser humano ideal para nós.

2.o) Onde estamos – é o ponto de partida, consistindo, por um lado, na nossa própria realidade; por outro, na realidade biopsicoespiritual do educando, criança ou jovem, sem deixar de considerar um só instante os diversos fatores externos que também fazem parte deste onde estamos, que são os ambientes em que vivemos (no lar ou na sociedade em geral), os acontecimentos mundiais, as adversidades ou fatalidades que podem ocorrer, entre tantos outros.

3.o) Com que contamos – os recursos para irmos de um ponto a outro, de onde estamos até aonde queremos chegar.

Iniciemos refletindo sobre o objetivo: aonde chegar. Qual é o objetivo da educação que vamos oferecer? Como é a imagem ideal do ser humano que queremos ajudar a formar?

Queremos educar um ser humano para que seja bom, eficiente e muito feliz! Sabemos que ele tem de ser valente, generoso, inteligente, sensível… E o que mais? Precisa ser também um bom profissional, um bom pai ou mãe de família, um cidadão correto, alguém útil à sociedade e a si mesmo…

Realmente, queremos contribuir para a formação de um indivíduo muito bom; se fosse possível, quase perfeito! Entretanto, considerando que não somos educadores perfeitos, o que podemos e devemos fazer é educar uma pessoa que queira aperfeiçoar-se, e aperfeiçoar-se em termos integrais; que queira ser melhor em tudo, que considere a vida como um todo que a considere como um campo experimental para o próprio aperfeiçoamento; que também queira servir à humanidade, fazer o bem, porque esta é uma exigência natural do espírito humano, uma exigência que tem muito a ver com a moral, a ética e a felicidade.

Temos de saber sobre nós mesmos. Onde estamos? Onde estamos nós, educadores, e onde está a criança ou o jovem que queremos educar? Segundo sejam nossa capacidade, nossos recursos e, com base nisso, nosso empenho na ação educativa, assim será a influência que poderemos exercer sobre o educando.

De quais recursos dispomos? Que modali- dades possuímos? Que tempo temos para essa tarefa?

Sabendo aonde queremos chegar, precisa- mos conhecer nossas condições para percorrer o caminho, conhecer nossa medida e, se esta for insuficiente, saber o que devemos fazer para ampliá-la.

A escola de nossos filhos também deve ser escolhida com o necessário cuidado, com a consciência dos objetivos que queremos alcançar.

É preciso recordar que estaremos escolhendo com os olhos sempre postos na imagem ideal, ou seja, aonde queremos chegar! É preciso também ter em conta o mundo onde vivemos, com tudo o que ele apresenta como fatores positivos e negativos que influem na educação da infância e da juventude. Os olhos do educador precisam estar sempre bem abertos a tudo que ocorre, para trabalhar com cada um dos aspectos oferecidos pelo mundo. E, nesse mundo, estão os amigos de nosso educando, os quais, especialmente na adolescência, são reais companheiros e podem colaborar ou dificultar a ação educativa que queremos desenvolver.

E onde nosso educando está? Como ele é?  É uma criança, um adolescente? O que já sabemos sobre a constituição psicológica e espiritual de um ser humano nessa ou naquela idade? Como é o NOSSO filho, o NOSSO aluno? Como é sua realidade interna, sua mente, sua sensibilidade? Segundo a realidade observada, levantaremos nossas estratégias educacionais visando o ideal a alcançar.

E chegamos ao terceiro ponto de nosso plano: o que se refere aos recursos com que contamos para ir de onde estamos até aonde queremos chegar.

Afinal, quais são os recursos docentes, as técnicas, que podemos utilizar para responder bem a este desafio de educar?

PECOTCHE, no livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, ensina como identificar e classificar as nossas próprias falhas caracterológicas. Explica que algumas deficiências psicológicas podem ter origem congênita, na própria herança, ou surgir por dificuldades experimentadas na infância, por omissões ou erros no processo educativo. Aprendendo a identificar em nós tais deficiências, podemos não só debilitá-las, mas também observar com superior efici- ência como elas influem em nossos educandos, para ajudá-los de maneira mais eficaz. Por conseguinte, o primeiro passo é o trabalho que o educador realiza em si mesmo.

Não há receitas nem medidas únicas; nossa atuação deve ser equilibrada e ativa, sempre inspirada em conhecimentos reais. É preciso dar muitos elementos e ensinar a pensar. Nossa atuação educativa não precisa ser tão forte como um holofote, a ponto de atordoar com sua luz intensa e impedir que os educandos caminhem com as próprias pernas, nem tão tênue como a chama de uma vela, dificultando a visão do caminho que precisa ser seguido. Equilíbrio! Aí está uma das palavras-chave em educação!

Entre as leis que fundamentam a Pedagogia Logosófica, está a Lei de Analogia. Por isso, especialmente no trabalho com o conheci- mento transcendente, um recurso muito destacado é o do uso de imagens analógicas, que favorecem a compreensão do que se quer ensinar.

Num trabalho realizado com alunos de 6 anos, por exemplo, que apresentavam dificuldades naturais de convivência entre si, foram enfocados os conceitos de amizade e de simpatia. Entre os registros realizados em conjunto, pelos próprios alunos, vale destacar:

Fizemos uma analogia da amizade com o ímã. Se quisermos ter bons amigos perto de nós, temos também que ser bons, alegres, educados e simpáticos. Aprendemos que a amizade é muito importante na vida das pessoas. Pensamos em nossos amigos e nas coisas boas que fazemos com eles. Estamos descobrindo que, para os nossos amigos ficarem felizes, devemos cultivar o respeito no trato com eles.

Outros recursos oferecidos pela Pedagogia Logosófica, de suma utilidade, dizem respeito à correção dos erros. Entre os conceitos trabalhados está o de redenção de si mesmo. Os erros são naturais no processo de aperfeiçoamento, mas têm suas implicações e responsabilidades. É preciso ensinar às crianças e aos adolescentes que cada um pode e deve ser seu próprio redentor. Que saibam que dentro de si mesmos está a possibilidade de cometer cada vez menos erros, o que já é um princípio de redenção. Em seguida, surge a prática regular de ações acertadas, baseada na Lei de Repetição. Este, por sinal, é outro princípio relevante da Pedagogia Logosófica: repetir o que se quer ensinar com inteligência, com criatividade, repetir superando a vez anterior!

Algo que também merece destaque se refere à administração consciente dos estímulos positivos. Que nossa ação educativa se oriente sempre pelo estímulo, e não pela repreensão, feita geralmente com palavras bruscas e violentas. A tendência comum é dar mais ênfase aos erros do que aos acertos. Pergunte-se quanto tempo é gasto no comentário sobre uma prova escolar quando o filho chega com um resultado negativo. E quanto tempo é dedicado aos comentários, quando ele obtém sucesso? Quanto tempo gastamos com os parabéns? A ênfase deve recair nos acertos: nos nossos, nos dos alunos e nos dos nossos filhos. Assim, tais acertos passam a ser fonte de novos estímulos, podendo ser repetidos e aperfeiçoados.

E, quando chegam os acertos, é importante ensinar à criança e ao jovem que não devem ser egoístas, guardando esse ouro só para si. Eis aí outro estímulo: o de estender o bem aos demais, ou seja, ensinar o que se aprendeu. Além de influir no cultivo de valores psicológicos e morais, tal procedimento ajuda na fixação do que foi aprendido. Aprender generosamente, como assinala a Pedagogia Logosófica, é muito estimulante e também constitui um dos trabalhos relevantes que se realiza no Colégio Logosófico, onde as crianças, desde pequenas, e os adolescentes são estimulados a ensinar o que aprendem.

 

Liara Sia Moreira Salles

Pedagoga pela UEMG / Especialista em Psicopedagogia / MBA em Gestão de Instituições Educacionais pela PUC / Diretora Geral do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários – BH / Coordenadora do Colegiado do Sistema Logosófico de Educação


 
 

Receba Nossos Informativos

Cadastre seu email para receber nossos informativos com novos artigos, livros e conteúdos exclusivos.