Quando é mesmo que a criança começa a pensar?
20 de março de 2016 | Gizella Yamara de Oliveira Almeida

Pode parecer fácil responder a esta pergunta, mas…Vamos ver. Tomemos as seguintes situações:

Na primeira, dois meninos estão brincando com seus carrinhos. De repente, um deles bate com força o seu brinquedo no chão para quebrá-lo. O outro, vendo aquilo, faz o mesmo. Por que será?

A outra situação é a da filha pequena que ama muito a mamãe, mas que, ao fazer algo errado e ser corrigida por esta com firmeza, lhe diz: – Eu não gosto mais de você! Vou embora desta casa!

Eis duas situações que, como tantas outras, apresentam crianças em atitudes contrárias ao que realmente condiz com a sua realidade mental ou sentimental.

 

Influências para o bem e para o mal

A criança não nasce pensando, ou melhor, ao nascer, a faculdade de pensar não atua de imediato na mente infantil. Mas sabemos queelajátemvidamental. Quandofazal- go que não é de sua vontade – e aqui pode- mos ressalvar que a mesma coisa ocorre com os adultos – está sofrendo a influência de uma força chamada pensamento.

Para a Pedagogia Logosófica, os pensamentos têm vida própria e influenciam em tudo as ações do ser humano, para o bem e para o mal. Se os desconhecemos e não temos domínio sobre eles, mandam e desmandam em nossa mente, em nossa vida, criando situações muitas vezes desagradáveis.

À medida que a criança se desenvolve, co- meça e cresce nela o entendimento das coi- sas que a cercam. Geralmente, aparecem aí as perguntas: O que é isso? Por quê? Para que serve? Como se faz? Por que você tem que ir lá? Quem fez isso? Etc.

É a maravilhosa mente humana, dando mostras de quanto poderia ser exuberante se recebesse tratamento adequado para movimentar-se sem travas. Digo isso porque muitas vezes costumamos achar aborreci- das as tantas perguntas das crianças e vamos logo respondendo que isso é isso e pronto, que aquilo é assim e acabou, inibindo a grande oportunidade que a criança tem de aprender a pensar.

Para que a criança pense, ela precisa realizar movimentos inteligentes em si mesma. Ela observa, entende e elabora compreensões a respeito de algo. Assim começa e assim segue no uso da função de pensar.

 

Uma realidade viva na mente – e de fácil comprovação

A cena agora é da vida adulta:

No supermercado, uma senhora está comprando uma bandeja de morangos. Coloca as frutas em seu carrinho e… Naquele preciso instante, uma outra senhora se pôs a reclamar sobre o preço elevado justamente dos morangos:

– Mas veja, isso é um abuso! A gente só deveria comprar frutas da época, porque senão paga caro à toa.

A primeira senhora passou a olhar com outros olhos os morangos que pusera em seu carrinho, já na dúvida sobre o que fazer com eles, e acaba dizendo num impulso:

– É mesmo um abuso! Não vou levá-los!

Pronto! Isso é ser influenciado pelo pen- samento alheio.

Quantas vezes queremos fazer algo, já entendemos que precisamos fazer, mas não o fazemos? Ou o contrário: não que- ríamos fazer, mas acabamos fazendo? Essa força, que parece mais forte que nossa vontade, são os pensamentos – entidades psicológicas animadas, com vida própria, que podem passar de uma mente para outra.

 

“Mamãe, hoje eu não fugi!”

O que a Pedagogia Logosófica chama de princípio consciente pode ocorrer bem cedo, já na infância. As crianças são capazes de realizar a seguinte discriminação: se é ela quem atua porque quer, ou se a atuação não condiz com a sua vontade.

Esta conversa com o filho de 3 anos, aluno do Colégio Logosófico, nos foi relatada pela mãe:

– Mamãe hoje eu não fugi!

Ele ganhou mil parabéns, porque vinha fugindo de sua sala de aula com muita fre- quência. E seu relatório ainda não tinha terminado:

– Mamãe, o pensamento disse assim: “Foge, Marcos Felipe, foge!” Mas eu não fugi. Sabe aquele jardim da minha sala? Eu fui lá e fiquei um pouco, e aí a “vontade” de fugir passou e fui fazer a minha atividade.

O princípio consciente se dá exatamente quando somos capazes de distinguir entre nossa própria vontade e essas forças que também nos movem – os pensamentos.

Nas escolas logosóficas, esse aprendizado começa desde os 2 anos. As crianças vão aprendendo a se observar, a perceber o que ocorre quando agem desta ou daquela maneira.

A birra, por exemplo, e também a pirraça atacam a criança desde bem pequena e se fortalecem na mente infantil na medida em que seus caprichos são atendidos. Se, porém, essa criança começa a observar a si mesma, aprende a perceber o movimento que faz em sua mente o pensamento pirracinha, por exemplo. Inicia-se, assim, um reconhecimento desse agente mental.

Esse é um primeiro passo. À medida que avança em idade e com os estímulos que recebe de seus pais e professores, a criança conseguirá ampliar esse movimento interno. O próximo passo será conseguir mudar seu estado interno por esforço próprio. Apesar de muitas vezes ser muito forte a pressão de um pensamento negativo, a mente infantil, com sua vontade, pode expulsá-lo de seu recinto. Esse ato, aparentemente simples para a criança, tem significativo valor para o desenvolvimento natural da vida consciente.

 

Isso não é pensar?

Mudar um pensamento não é algo fácil para muitos adultos. Mas, se isso é ensinado na infância, as perspectivas serão de uma vida com mais acertos.

A função de pensar pode ser reconhecida quando experimentamos uma sensação de responsabilidade diante de nossas ações, quando as ideias iluminam a mente ou quando optamos por um caminho melhor.

Uma palavra dita para fazer um bem é prova de que existiu o ato de pensar. Certa vez, presenciamos a seguinte cena entre duas crianças de 6 anos:

Hora do lanche na escola. Uma criança se recusava a comer a fruta servida. Na semana anterior, a professora havia trabalhado sobre o tema Esforço, e os alunos haviam conversado e identificado situações onde o esforço era necessário.

Então, sua amiguinha lhe disse:

– Você lembra o que a professora disse? Se não gostamos da fruta, todos os dias provamos um pouquinho, até que podemos gostar dessa fruta! Eu não gostava do mamão, mas estou me esforçando todos os dias para gostar. Por que você não tenta?

Vejam só! O conceito de esforço estava dentro da criança, e sua recordação levou a ativá-lo. E houve algo mais: ela voltou para si mesma, observou a necessidade da amiga e usou sua palavra para lhe fazer um bem.

Isso não é pensar?

Pensar é, sem dúvida, um dos atos mais sagrados para a vida humana, o que confere a ela a maior sensação de liberdade. E que impor- tante é o labor pedagógico de ensinar o uso desse pensar desde a tenra infância!…

 

Gizella Yamara de Oliveira Almeida

Diretora do Colégio Logosófico – Unidade Uberlândia. Pedagoga pela FUMEC BH, com especialização em Psicopedagogia e Reeducação Escolar pela UEMG


 
 

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