Por uma humanidade mais consciente
30 de janeiro de 2016 | Carlos Bernardo González Pecotche

Quando repassamos os fatos históricos que marcaram
o princípio e o fim de épocas gloriosas ou de decadência, e o entendimento se põe a meditar sobre o que cada um deles significou e significa para a reflexão dos homens, experimentamos, sem que possamos contê-lo, um sacudimento espiritual, uma alegria que vem junto a uma aflição e junto, sobretudo, a um anseio ardente de ser útil à humanidade.

Esse anseio é, precisamente, o que impulsiona os seres humanos para melhorar suas condições e qualidades, num amplo e generoso gesto de superação espiritual. E é nesse afã que os homens encontram seus melhores estímulos e as mais nobres inspirações de bem.

Mas a humanidade, que se agrupa em raças ou povos de diferentes idiomas, hábitos, etc., pertencentes, sem exceção, ao gênero humano, está formada por grandes massas de diversos tipos psicológicos. Estão essas massas distanciadas entre si mental e espiritualmente, de acordo com o grau de adiantamento que umas e outras acusam, e de acordo com os costumes, crenças ou inclinações de seus pensamentos.

No seu todo, isso estabelece dentro desse conjunto diferenças que às vezes culminam em antagonismos extremos e que são causa, desde tempos imemoriais, dos tantos conflitos produzidos no mundo. Esses conflitos, com o passar dos anos e dos séculos, foram aumentando o volume das contendas e dos desastres, restando como saldo fragmentos de humanidade. Queira-se ou não, isso veio debilitando o homem e, até se poderia dizer, afastou de suas possibilidades a grande figura arquetípica de seus elevados destinos.

Isto tem muito a ver com o abandono a que, incompreensivelmente, a humanidade parece ter-se entregado no curso dos séculos, abandono de suas condições e qualidades e, sobretudo, da disposição para atender à única realidade que dá expressão à sua existência: a consciência.

Ultrapassado o limite de todos os desejos e exigências que costumam determinar o conjunto das aspirações humanas, e ainda de suas razoáveis ambições, o ser humano, numa quase permanente agitação, foi-se submergindo pouco a pouco na inconsciência. Sem maiores transtornos para sua razão, foi-se submergindo num obscurecimento que, sutilmente, o foi embriagando, até convertê-lo num instrumento que justifica, aos olhos das outras pessoas, os erros ou desvios em que ele incorre.

Devolver, portanto, à humanidade o pleno gozo de suas faculdades e o uso consciente de sua razão deve ser e é o maior imperativo do momento atual.

Não se há de esquecer que foram sempre uns poucos, em relação ao número de seres humanos que povoam a Terra, os que tiveram a responsabilidade de guiar os homens pelo caminho que devia conduzi-los ao cumprimento de seus fins mais elevados. De modo que o peso dessa grande responsabilidade recaiu, em todas as épocas, sobre esses poucos que tiveram de pensar pelos demais. Pois bem; não teria chegado o tempo de essa responsabilidade ser compartilhada por um número maior de seres, e de aumentar a cada dia o número dos que pensam e dos que colaboram em tão magno trabalho?

A resposta surge afirmativa, porque a lição que a guerra atual haverá de representar para a humanidade é demasiado grande para que não seja compreendida em seu profundo conteúdo. Chegou, pois, o momento de toda a humanidade ser mais consciente de sua própria existência e de tudo que lhe pertence em razão de sua primordialíssima função civilizadora. Cada integrante da espécie humana deverá alcançar, no futuro mais próximo, essa consciência, que muitas vezes o chamará à reflexão; consciência de seus deveres para consigo mesmo, no que diz respeito à inquestionável necessidade de uma superação de seus valores individuais; consciência de seus deveres para com a família e para com a sociedade.

É sabido que o despertar da consciência não se produz em todos do mesmo modo. Nas mentes cultivadas, ou habituadas a certas disciplinas, esse despertar surge como uma eclosão de luz que ilumina uma nova e mais ampla fase da vida, a de maior transcendência. Já nas mentes que não têm cultivo, promove- se em tímidas manifestações de com- preensão, que somente alcançam sua culminação quando chegam às condições de aptidão exigidas por tão importante acontecimento.

A era que se inicia com o término da guerra atual* será, pois, a era da responsabilidade; a dos deveres e dos direitos; vale dizer, terá chegado o momento de começar definitivamente a era da evolução consciente.

Já se viu muito claramente como o pensamento dos grandes estadistas, bem como das opiniões reitoras que tornam público o critério que se forma entre as massas, veio se modificando nos últimos tempos, sobretudo no decorrer deste último ano. Todos concordam que o mundo deve ser conduzido por caminhos mais retos, mais justos e mais amplos, nos quais a dignidade humana encontre suas expressões mais puras e elevadas.

A liberdade, que é fundamento essencial da vida, forma o vértice do triângulo cuja base repousa no dever e no direito. Perante este ternário que plasma a síntese da responsabilidade humana, será preciso erguer a consciência dos ho- mens e fazer com que ela se manifeste em todo o seu esplendor e na sua po- tência máxima. O futuro da humanida- de depende dessa realização. Nela en- contrará a chave que assegurará a paz sobre a Terra.

 

Carlos Bernardo González Pecotche

 

* N. T.: Tendo publicado este artigo em março de 1945, o autor se refere à 2-a Guerra Mundial.


 
 

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