Por trás de uma batata frita
20 de maio de 2018 | Luciana Caixeta Queiroz Geraldo

Meu filho tem quatro anos. É uma criança tranquila, amável e muito observadora. Fica muito feliz quando supera uma dificuldade e gosta de desafios! Mas, em algumas circunstâncias, uma de suas características negativas se sobressai. Observo desde que ele tinha um ano e meio uma tendência a fazer birra sempre que não consegue o que quer. A obstinação por querer algo material, como um brinquedo, por exemplo, o faz sofrer e, quando esse pensamento se manifesta, cria-se um ambiente muito tenso, que estraga qualquer passeio.

Por viver experiências muito difíceis com ele em ambientes que estimulam o consumo, ficamos alguns meses sem frequentar esses lugares. Normalmente, antes de ir, meu marido e eu conversávamos com ele de forma serena, recordando o motivo do passeio. Porém, não estávamos alcançando o resultado esperado.

Um dia desses, eu e minha família passeávamos pelo shopping, e por ser um feriado, as lojas estavam fechadas. Disse ao meu filho que iríamos lanchar, brincar e depois voltaríamos para casa. Ele prontamente disse: “Mamãe, quero batata frita dali!” Na mesma hora me lembrei de duas experiências difíceis que vivemos quando ele quis brinquedinhos da rede de fast food apontada.

Imediatamente, lembrei a ele, novamente, o motivo pelo qual tínhamos ido ao shopping e que iríamos comprar, naquele momento, apenas a batata frita que ele tanto queria. Ele concordou, e fomos felizes para a praça de alimentação. Chegando lá, pediu insistentemente para que eu comprasse o tal lanche que tinha um brinquedinho. Recordei-lhe a nossa conversa e falei, olhando em seus olhinhos, que não iríamos comprar aquele lanche, pois ele não come o sanduíche. Então, compraríamos apenas a batata e o suco. Mas como ele queria mesmo era o brinquedo, meu filho continuava insistindo.  Novamente, eu lhe disse:

– “Não, filho. Não vou comprar nada além do combinado”.

Como não cedi aos seus caprichos, aprontou aquele “berreiro”.

Saímos daquele local para “tentarmos” conversar em um lugar mais tranquilo, mas não tivemos sucesso. Percebemos que não era o caso de insistir. Então, decidimos ir embora e lanchar em casa mesmo. O objetivo dessa decisão era “dar um susto” no pensamento. Meu filho ficou transtornado por ter que ir embora do shopping sem lanchar. Mas como não tinha cumprido com o combinado, ele sabia que perderia aquela oportunidade.

Enfim, compramos o lanche fora do shopping, e ele comeu em casa as batatas que ele queria. Procurando aproveitar o fato para gerar um aprendizado para a vida, mais tarde conversamos sobre o acontecido, e ele, com a naturalidade de uma criança de quatro anos, disse: “Eu só queria aquele brinquedinho, porque eu não tenho ele”. Então, durante a nossa conversa, fui lhe mostrando, aos poucos, uma importante realidade:

– Olha, filho, papai e mamãe fazem muito esforço para dar a você e a sua irmãzinha o melhor que podemos. Além do mais, você já tem muitos brinquedos! E, olha, nunca terá todos os brinquedos do mundo!

Tenho aprendido sobre o valor de explicar à criança os motivos de uma decisão e de ir construindo a confiança dos filhos em nós, pais.

Ainda querendo ampliar a experiência, acrescentei a ela mais algumas sugestões.

– Como você tem muitos amiguinhos, pode pedir para brincar com os brinquedos deles, pode emprestar os seus e até trocar, se quiserem!

A conversa transcorreu tranquila. Certamente, não compreendeu tudo, mas como estava feliz e sereno, captou algo do que conversamos. Estou descobrindo que corrigir os filhos em momentos de alegria traz resultados muito melhores.

Três dias depois, precisei ir ao mercado central com meu filho.   Antes de sairmos, conversamos, recordamos o que tínhamos vivido alguns dias antes e fizemos combinados. Durante as compras, o pensamento de birra quis aparecer, sim, mas como a sua mente e coração estavam mais preparados, conseguimos contornar rapidamente a situação e tivemos um passeio muito gostoso!

Buscando elementos para educar meu filho de forma mais segura e projetando essa educação para toda sua vida, encontrei a pedagogia logosófica, que me ensina a começar por educar a mim mesma. Sim, porque é impossível dar aquilo que não se tem. Nessa situação, quando aparece a birra, por exemplo, um conhecimento que faz parte dessa pedagogia, que tem sido importante, é sobre a existência de pensamentos que determinam a conduta de cada um. Então, tenho que trabalhar os pensamentos que estão em minha própria mente para ser capaz de ter atuações melhores diante dos pensamentos de meu filho.

Assim, tem sido todo um trabalho de cultivo da paciência, do saber o momento oportuno de atuar, de ser firme para não ceder aos caprichos dos pensamentos do meu filho e para não ceder porque isso seria aparentemente mais fácil para mim no momento. Enfim, estou chegando à conclusão que, se quero uma educação mais efetiva para a vida de meu filho, tenho que educar a mim também, para ter mais recursos para oferecer.

Sobre o assunto, destaco um trecho bem interessante que li, dentro da rica bibliografia que orienta a pedagogia logosófica: “É sintoma de obstinação o capricho, que aparece na infância e aumenta continuamente com o afago daqueles pais que consentem, solícitos, os desejos extravagantes e veementes de seus filhos. É assim que surge, mais tarde, o obstinado, o que se compraz em contrariar os gostos, a opinião ou a vontade dos demais; o que sempre se opõe, por palavra ou ato, a toda mudança que diga respeito a sua conduta ou a seu modo de pensar.”

Meu marido e eu temos ainda uma longa trajetória pela frente, mas sabemos que poderemos enfraquecer a influência desse pensamento na vida de nosso filho, estando atentos para planejar experiências, analisar o vivido e estimular muito as suas conquistas, confiantes de que colheremos o que plantarmos.


 
 

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