Os pensamentos, o pensar e a formação da consciência
20 de março de 2016 | Marinelva Bonassi Machado

A Pedagogia Logosófica permite que a criança, desde cedo, aprenda a conhecer os pensamentos que existem em sua mente, identificando-os em suas ações. Possibilita, ainda, diferençar os próprios dos alheios, os positivos e de índole superior dos negativos, de índole inferior.

 

Mente apta.

Mas como tratar com a criança sobre algo aparentemente tão complexo quanto o pensamento?

A Logosofia afirma que o universo dos pensamentos, como parte que é do mundo mental, é tão real quanto a própria realidade física. Os pensamentos são entidades autônomas, têm vida própria, migram de uma mente para outra e podem ser vistos. Podem ser vistos pelos olhos do entendimento, como o pensamento de timidez ou de entusiasmo que se desenha na fisionomia, nas atitudes ou na conduta dos seres em diferentes situações cotidianas.

Ensinar a criança a perceber os movimentos e atuações de um pensamento em sua vida ou na vida do outro, a conhecer a natureza dos pensamentos e identificá-los, é colaborar no processo de conhecimento de si mesmo e na formação da consciência individual.

Durante a infância, contrariamente ao que algumas pessoas podem pensar, ou seja, que a mente ainda é inapta para compreender certas manifestações da vida adulta, a mente pode captar e compreender, sem maior esforço, muitas dessas manifestações, pois o próprio espírito da criança facilita isso.

O princípio consciente, para a Logosofia, inicia-se na vida da criança quando esta começa a discriminar os pensamentos do ato de pensar, quando começa a não se deixar manejar por pensamentos alheios, como vivencia o personagem Chico, do livro infantil de Zolet (p.6 – 12, 2003), nestes trechos da história Chico – o valente:

Quando chegou em casa estava já sem forças para lutar contra os pensamentos que queriam mandar o Chico fazer coisas feias… Um deles era o pensamento ditador, inimigo das crianças. (…) Ele mandava o Chico pedir tudo com o grito, chorando, mandando fazer as coisas que queria, sem respeito, sem afeto e suavidade. (…) Chico lutou feito Hércules contra os ditadores da casa mental. Era uma luta interna, invisível aos olhos físicos. Chico era um menino muito valente! (…) Sua pequena mente já possuía grandes virtudes… (…) Quem iria vencer a luta?(…) Mais um tempo e… Chico abriu a porta. (…) Quanta alegria tinha em seus olhos! Chico tinha vencido!

 

O cultivo da inteligência.

Ao identificar um pensamento na própria mente, a criança, como o adulto, tem a prerrogativa de ser dona de seus atos, podendo autorizar ou não a atuação do pensamento identificado. Este conhecimento favorece o aumento dos acertos,aumentando,também, a confiança de cada um em si mesmo. Podemos dizer que é um poder que confere a seu possuidor a possibilidade de conquistar a verdadeira liberdade, a liberdade interna! A Logosofia ensina que o segredo da paz está nos pensamentos. Mudando os pensamentos, podemos mudar a vida.

Identificar a atuação de um pensamento é algo diferente quando comparado ao movimento de pensar, porque este último pressupõe um processo mental, a ação de criar. Favorecer o ato de pensar na criança é um dos itens preponderantes na aplicação da Pedagogia Logosófica. Seu autor orienta para que se aprenda a pensar em momentos de alegria, de bem-estar, de otimismo e entusiasmo, não em momentos de tristeza e pessimismo, para que a faculdade de pensar cumpra seu verdadeiro objetivo: abrir possibilidades ao entendimento com a atração de pensamentos úteis, assim como com a criação de novos pensamentos.

O pensar é uma faculdade da inteligência que precisa ser cultivada, o mesmo acontecendo com as faculdades de raciocinar, julgar, intuir, entender, observar, imaginar, recordar, predizer, etc. Daí a importância de uma educação que promova o desenvolvimento harmônico das faculdades mentais da criança e do adolescente, não privilegiando determinadas faculdades – como as de memorizar e imaginar, por exemplo–, em detrimento de outras.

 

Olhar atento.

Unido a isso, a Pedagogia Logosófica também oferece elementos imponderáveis para que possamos estimular no educando o desenvolvimento das faculdades do sistema sensível – sentir, querer, consentir, sofrer e amar –, desper-tando e ativando a sensibilidade da criança e do adolescente.

Com o propósito de buscar o equilíbrio entre a cabeça e o coração, ou seja, entre a mente e a sensibilidade, o docente logosófico insere, em diferentes situações de aprendizagem, imagens mentais, analogias, perguntas e reperguntas, relatos de histórias de vida, contos e outros recursos pedagógicos, tudo o que constitui ações que permitem ao educan- do ampliar o seu mundo, o mundo interior em sua realidade psicológica e espiritual.

De um conjunto de anotações feitas por uma docente do Colégio Logosófico, retiramos o registro da vivência, transcrita a seguir, que descreve como foi realizada a correção da conduta de uma criança de 5 anos. Segundo sua professora, a pequena havia desprezado e jogado ao chão um presente que ganhara de um colega:

Conversamos com a criança sobre a importância de ser grato; dissemos-lhe que a ingratidão pode deixar os seres indiferentes, amargurados, sem amigos… Que a gratidão faz com que a pessoa se sinta ainda mais humana, mais próxima de Deus, mais feliz… É o bem que responde ao bem recebido. Que, diante daquela atitude com o colega, teria de fazer algo, porque ele ficara triste e chateado. Depois da conversa, a criança fez um desenho; observei que se empenhava, inserindo muitas cores. Terminou, dobrou a folha, nos abraçamos, e ela retornou para a sala de aula. Na tarde seguinte, vi que me esperava sorridente e saltitante, na entrada da escola, e foi logo dizendo:

– Ó, eu fiz para o Fulano! É uma surpresa pro meu colega Fulano, mas eu quero mostrar pra você antes.

Abri o envelope, feito de papel de presente – provavelmente por ela própria –, era o desenho do dia anterior, e, junto dele, a dobradura de um coração.

– Foi minha mãe que me ensinou!, disse, referindo-se à dobradura.

Abaixei-me, olhamo-nos nos olhos por um instante e, felizes, nos cumprimentamos, brincando com as mãos. Estavam ali representados o exemplo de um esforço de redenção de si mesmo, um gesto de gratidão da criança pela atitude de amor ao ser corrigida, e a minha alegria pela oportunidade de estar vivendo aquele momento e ter podido colaborar comigo mesma e com aquele espírito em evolução.

Os pressupostos da Pedagogia Logosófica exigem um olhar atento, sensível e compreensivo à formação e ao desenvolvimento do ser humano como um todo, ou seja, sobre sua conformação biopsicoespiritual. Uma pessoa vista de forma indivisível, que possui corpo, instinto, mente, sensibilidade, espírito… Um indivíduo cultural e social, que pode desenvolver sua própria individualidade; um ser com identidade, um cidadão participativo que procura melhorar o lugar onde vive e colabora efetivamente com a humanidade, começando por sua parcela mais próxima: ele mesmo!

 

Marinelva Bonassi Machado

Pedagoga / Especialista em Fundamentos Educacionais / Mestre em Ciências da Saúde Humana / Coordenadora Pedagógica do Colégio Logosófico – Unidade Chapecó


 
 

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