Os estímulos na formação do caráter
30 de janeiro de 2016 | Carlos Bernardo González Pecotche

Na criança, o caráter responde em parte à região instintiva e em parte à região sensível. São duas correntes opostas que, ao se chocarem, produzem os diferentes impulsos, repercutindo no caráter com efeitos umas vezes benignos e outras vezes violentos.

Como a região sensível é muito sutil na criança, todas as coisas a impressionam profundamente, de tal forma que, segundo sejam os estímulos, assim são as reações, chegando muitas vezes a produzirem-se estados de hipersensibilidade que, ao menor estímulo, provocam nela excitações violentas, na maioria das vezes negativas, chegando até a inverter-lhe a vontade em sua adolescência.

O caráter se forma pela impressão dos estímulos. Na criança, o caráter está em formação; não há, portanto, caráter. São os estímulos que operam nela que o vão formando.

Desde o princípio até certa idade da vida, e muitas vezes até o fim, sempre haverão de predominar os primeiros estímulos, que se prolongarão pela ação de outros estímulos similares que o próprio caráter vai atraindo pela força do hábito. Até a criança chegar à puberdade, buscar-se-á que os estímulos sejam sempre naturais, nunca artificiais.

O estímulo natural é aquele que incita a criança à compreensão das coisas que a rodeiam e que combate a tendência de fazê-la acreditar que vive em um mundo ou estado que não lhe pertence.

O estímulo artificial é aquele que leva a criança a ter ambições de coisas que os pais não podem custear-lhe, incluindo-se aí tudo aquilo que tende a inculcar nela o que é errôneo. Esses são alguns aspectos do estímulo artificial.

Nada há que possa ajudar melhor à formação do caráter da criança que os estímulos, devendo tratar-se de que sejam sempre saudáveis e positivos.

Eis um exemplo de estímulo negativo, que produz na criança esse estado de hipersensibilidade que lhe embota a mente: se em uma criança – que, pelas causas referidas, é tão impressionável – se inculca o temor aos fantasmas, aos ladrões e a tudo aquilo que lhe possa causar horror ou terror, em breve tempo sua vontade se inverte e ela fica à mercê dos sacudimentos internos provocados pelo contato de qualquer coisa que excite sua sensibilidade, predisposta pela ação desse estímulo ao medo. Essa hipersensibilidade, ao inverter-lhe a vontade, reproduz continuamente a imagem desse estímulo em sua mente, convertendo-se em imaginação, de modo que o que antes era uma sensação emocional depois provoca verdadeiras comoções mentais que podem ocasionar desgastes nervosos de consequências fatais.

 

Carlos Bernardo González Pecotche

 


 
 

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