Os estímulos e a formação do caráter
31 de janeiro de 2016 | Mayra de Castro Miranda Araújo

Os primeiros estímulos que a criança recebe gravam-se em sua retina mental com muita intensidade, porque sua mente é terra virgem e fértil. E, se esses estímulos se repetem com freqüência, vão contribuindo para a formação do seu caráter,influenciando toda a sua vida!

Caráter em formação. Como podemos conceituar o caráter? Qualidade inerente a uma pessoa? Conjunto de traços psicológicos? Modo de ser? Temperamento? Índole?

E, quando dizemos formação do caráter, a que nos estamos referindo? Podemos influir na formação do caráter de alguém, de um aluno? Ou será que todos nascemos com o caráter já definido, sendo, portanto, imutável?

Pensamos que não. Sabemos que podemos mudar, que nossos alunos, nossos filhos, podem mudar, e encontramos na Pedagogia Logosófica elementos inestimáveis para favorecer, para orientar essa mudança. Entretanto, cabem aqui outras perguntas:

Temos o direito de interferir na formação do caráter de uma criança, de um adolescente, ou isto significaria moldar esse indivíduo? É possível favorecer uma mudança positiva sem moldar, sem limitar?

E ainda: Na criança o caráter está em formação, mas… e no adolescente?

 

Bens preciosos

Para responder a essas perguntas, é preciso considerar a constituição biopsicoespiritual do ser humano. No momento de nascer, cada pessoa tem, latentes em si mesma, impressas em sua herança individual, as características conquistadas até aquele instante, assim como as prerrogativas inerentes ao seu grau de evolução. Essa herança é como se fosse um grande arquivo onde são guardados os bens espirituais, conquistados nas diversas etapas de sua existência.

A partir daí, esse potencial – com o qual todos nascemos – será influenciado constantemente pelos estímulos que recebe e, conforme seja sua índole, positiva ou negativa , esse potencial vai se enriquecendo ou desvanecendo. Podem- se acrescentar valores ao grande arquivo, multiplicá-los ou deixá-los como em sua origem; podem-se ainda colocar nele apenas entulhos ou – quem sabe? – usufruir os bens preciosos que guarda.

Seria uma equação mais ou menos assim:

 

Ser humano (educando)
=
herança individual
+
estímulos que recebe
(no lar, na escola, nos relacionamentos e na vida em geral)

 

Cada termo dessa equação tem um valor específico e único. Esta realidade pode ser observada com clareza num lar com mais de um filho: cada um tem sua herança, sua modalidade, e, se somarmos a essas características os mesmos estímulos, os resultados serão diferentes! Podemos, ainda, acompanhar situação diversa: crianças com potenciais parecidos e que recebem estímulos diferentes apresentam, posteriormente, resultados bem diferentes também.

tabela heranca

Analisando uma planta, constatamos que todos os fatores podem influir no seu crescimento; entretanto, nenhum deles pode ir além das possibilidades impressas na semente original, é um crescimento condicionado às características da semente. Não há como, por mais adequadas que sejam as condições, fazer nascer uma laranjeira de uma semente de maçã, por exemplo; mas podemos, sim, favorecer o surgimento de uma macieira linda e forte, ou deixar crescer uma outra, anãzinha, fraca, que venha a dar poucos frutos… Isso vai depender dos elementos que envolverem o cuidado com a planta.

Detendo nosso olhar na coluna correspondente à criança e ao adolescente que estão sob nossa responsabilidade, veremos, analogamente, uma herança que deve ser conhecida, respeitada, que determina certas características e possibilidades. Não há como exigir uma mudança que fuja à modalidade expressa na herança de alguém, mas vemos um campo de atuação rico e de suma importância para a construção do futuro de cada indivíduo, isto é, para esta planta em que cada um se vai transformando ao longo de muitas primaveras… No espírito humano há ainda a possibilidade de se realizarem transformações extraordinárias, capazes até mesmo de dar nascimento a uma nova linha genealógica.

 

Região mental e sensível muito sutil

As tendências negativas trazidas como herança tanto podem ser corrigidas, amenizadas, como podem arraigar-se. As positivas, por sua vez, podem solidificar-se, ser superadas e enaltecidas ou, lamentavelmente, podem também se perder.

Portanto, os estímulos que a criança e o adolescente recebem são decisivos no desenvolvimento de suas tendências. Esses estímulos são importantes nas duas fases da vida do ser humano e até mesmo em nós, adultos; mas, na criança, os estímulos exercem um fator especial, pois todas as coisas a impressionam profundamente, de tal forma que, segundo sejam os estímulos, assim serão as reações que apresenta. Já no adolescente, no jovem, no adulto, as coisas repercutem de forma e intensidade diferentes.

A repercussão dos estímulos varia de acordo com a idade e as características psicológicas do indivíduo que está sob nossa influência; assim como acontece com uma planta, a criança é aquela mudinha bem delicada que pode murchar com apenas uma breve exposição ao sol forte, pois ela possui uma região mental e outra sensível muito sutis.

Podemos tomar um outro exemplo: Que diferença existe nas repercussões da falta d’água numa mudinha e numa árvore já formada? Certamente, uma diferença enorme!

Voltando-nos aos humanos: Representa o mesmo para uma criança pequena ou para um ser adulto assistir, por exemplo, a uma discussão entre seus pais?

Os primeiros estímulos que a criança recebe gravam-se em sua retina mental com muita inten- sidade, porque sua mente é terra virgem e fértil. E, se esses estímulos se repetem com freqüência, vão contribuindo para a formação do seu caráter, influenciando toda a sua vida!

 

Estímulos naturais

Do acervo da Pedagogia Logosófica, colhemos o seguinte:

“Desde o princípio até certa idade da vida – e muitas vezes até o fim – sempre haverão de predominar os primeiros estímulos, que se prolongarão pela ação de outros estímulos similares que o próprio caráter vai atraindo pela força do hábito.”

Por esse motivo, a fase da infância é tão especial para a vida. Deve merecer dos pais e educadores uma atenção muito particular, o maior cuidado, o maior zelo, a maior delicadeza no trato, a maior dedicação, para que os primeiros anos se fixem como fonte de inspiração para os anos que se seguirão.

Que tipo de estímulos as crianças devem receber? E os adolescentes? A Pedagogia Logosófica orienta no sentido de que esses estímulos sejam sempre naturais, positivos, nunca artificiais ou negativos.

 

Estímulos Negativos

Que exemplos de estímulos negativos podemos citar?

1. Achar graça nas coisas erradas que a criança faz.

2. Fazer comentários depreciativos sobre pessoas a quem ela deve respeitar.

3. Ceder a seus caprichos.

4. Ameaçá-la ou atemorizá-la de diversas formas: Vou contar pro seu pai!; Desse jeito você vai perder o ano; Vou levá-lo pra tomar injeção; Lá vem o guarda…; A professora é brava!…; Já, já, você vai para a Diretoria; Da próxima vez, você leva uma suspensão… Poderíamos comparar esses recursos aos agrotóxicos: resolvem o problema na hora, mas deixam graves conseqüências!

5. Tratá-la com violência, seja com palavras, com o olhar ou mediante as imagens que lhe são oferecidas na escola ou no lar, na televisão…

6. Permitir que assista a cenas e filmes inadequados, que veiculam imagens terríveis do mal como sendo normais.

 

Estímulos Positivos

E que exemplos de estímulos positivos podemos recordar?

1. Observar tudo de belo que existe à sua volta: a Natureza, as boas atuações de outras pessoas.

2. Estimular a busca de ideais.

3. Oferecer-lhe bons exemplos de toda ordem, como o entusiasmo e o gosto pelo trabalho, a alegria de viver e a boa disposição diante das lutas.

4. Estimular o saber olhar para dentro de si mesmo ao analisar o que vive.

5. Relatar histórias de meninos que querem ser bons, falar de exemplos de benfeitores.

6. Fazer referências às coisas boas que desfrutamos e à gratidão que devemos cultivar por elas.

7. Analisar e valorizar os acertos.

8. Estudar situações observadas em outros seres, mas que podem ser vivenciadas por todos nós, estabelecendo em sua mente pensamentos já pensados.

 

Entretanto, será que esta classificação dos estímulos – positivos e negativos – está correta? As coisas acontecem sempre desta forma? O estímulo positivo é sempre positivo? E o negativo é sempre negativo? Existem alguns que sempre são negativos ou positivos em quaisquer circunstâncias, mas é certo que cada criança, cada adolescente, deve receber estímulos segundo sua necessidade, sua modalidade e capacidade. Daí a importância de que o adulto responsável sempre pense o que é melhor em cada circunstância.

 

Delicadas e preciosas plantinhas

Bem, nossos educandos, sejam alunos ou filhos, passam muitas horas em nossa companhia. E quanto amor lhes dedicamos! O que temos feito por eles? O que mais podemos fazer para ajudá- los a enriquecer sua bagagem interna, para contribuir mais na formação do seu caráter? Voltando a uma das perguntas feitas no início deste artigo: Podemos e devemos oferecer muitos estímulos positivos ou isto seria moldar os educandos segundo nossos critérios?

O que acontece a uma planta que não recebe cuidados, cuja terra não é adubada, da qual não se tiram as ervas daninhas, que vai crescendo sem orientação ou estaca para sustentá-la?

Pensemos em nossos discentes: se não lhes oferecermos os estímulos que julgamos adequados, outros farão isto por nós, e os resultados poderão ser muito diferentes daqueles que, em princípio, idealizamos.

É preciso pensar nessas delicadas e preciosas plantinhas que são nossas crianças, esses seres que cada um de nós tem sob sua responsabilidade. É preciso pegar a pá, o ancinho, o rastelo, muito adubo, para desfrutarmos a ventura de observar, de participar dessa alquimia, permitindo que cada educando transforme e enriqueça sua herança individual, com estímulos positivos e naturais, alcançando a tão felicidade!

Sejamos bons jardineiros!

 

Mayra de Castro Miranda Araújo

Pedagoga pela UEMG / Pós-graduada em Pedagogia Empresarial / Pós-graduada em Metodologia do Ensino Fundamental I pelo CEPEMG / Mestranda em educação tecnológica CEFET-MG / Diretora Pedagógica do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários – BH


 
 

Receba Nossos Informativos

Cadastre seu email para receber nossos informativos com novos artigos, livros e conteúdos exclusivos.