O trabalho consciente com a criança tímida
20 de março de 2016 | Jaqueline Miotto Zolet

 Às vezes falo para as crianças: Eu também já tive esse pensamento de vergonha. Hoje, quando ele vem, sei que é só um pensamento. Penso que sou valente, sou capaz, que não preciso ter vergonha. Quando observo que ele está querendo dominar minha mente, tenho que ficar atenta, não deixar isso acontecer, pois ele vai me fazer perder uma oportunidade.
É necessário que o docente conheça o caminho
Observo, em cada início de ano letivo, que sempre há crianças tímidas na turma em que vou trabalhar. Como fui uma delas, identifico com facilidade essa característica nos demais, e sei também como essa modalidade atrapalha a convivência e interfere no desenvolvimento saudável da pessoa.

Como atuar de maneira precisa e correta para que meus pequenos alunos se liberem de tão angustiante deficiência? Como poupá-los do domínio de um pensamento que, inibindo a vontade para a pessoa não falar, não se expressar, provoca a perda de tantas oportunidades ao longo da vida inteira?

Do riquíssimo acervo da Pedagogia Logosófica, colho a propósito a seguinte orientação:

“Buscar a forma de eliminar do ser humano essa anomalia psicológica, reeducando seu caráter até alcançar uma total emancipação da timidez que o oprime, é aplainar o caminho a todos os que sofrem as consequências de causas que, alheias ao bom sentir do coração, foram sendo repetidas de geração em geração, sem que se conseguisse descobrir em que consistia esse mal que tantos desassossegos e desditas sempre causou ao indivíduo.”

Tenho comprovado ser possível fazer com que as crianças identifiquem e conheçam esse pensamento, aprendendo a se defender dele desde cedo. É evidente que nisso, como em tudo, é necessário que o docente conheça o caminho, tenha o conhecimento, dê exemplo de segurança e valentia.

Sou consciente do processo que fiz, orientada pelo método logosófico, para aquisição de valores internos nesse particular; logo, posso contar com recursos da minha própria experiência para ensinar tanto a meus filhos quanto a meus alunos como superar esse complexo de temor, vergonha e covardia que é a inibição, a timidez.

Muitas falhas psicológicas surgem ou se acentuam na infância, o que exige especial atenção do docente. Por ocasião de uma apresentação que exija dos alunos qualquer tipo de expressão, por exemplo, ou da acolhida de uma visita em sala de aula, é necessário prepará-los internamente, para que vivam da melhor maneira a experiência, dando-lhes defesas para a mente. Isso, em relação a todas as deficiências psicológicas, logicamente.

 

Ajuda, em parceria, de escola e família
No caso específico do pensamento da inibição, é comum que eu leve às crianças elementos como estes:

– Eu também já tive esse pensamento de vergonha. Hoje, quando ele vem, sei que é só um pensamento. Penso que
sou valente, sou capaz, que não preciso ter vergonha. Quando observo que ele está querendo dominar minha mente, tenho que ficar atenta, não deixar isso acontecer, pois ele vai me fazer perder uma oportunidade. Se for o pensamento do medo, vou deixá-lo fora de minha casa mental, vou fechar a porta e a janela, deixar só os pensamentos lindos lá dentro, como o de querer me apresentar, ou de perguntar alguma coisa para a visita que vem até nossa sala de aula, ou o de falar para fora, com a voz forte, alta e bonita!

Os resultados dessas conversas, desse preparo das crianças, são excelentes!

Quando o docente está atento e consciente de sua realidade interna, consegue colocar-se junto de cada criança, vivendo com ela as alternativas das lutas contra as dificuldades, e faz isso com toda a bondade, com o melhor da sua estratégia. Sabe bem que aquilo que é fácil para um aluno, para o outro que não tenha igual virtude ou característica é um problema, sendo preciso realizar um processo de aquisição da modalidade resoluta e valorosa.

Escola e família podem traçar, em parceria, planos eficazes para que a deficiência identificada seja superada por filhos e alunos. Seja na infância, seja na adolescência, estes têm que sentir, da parte dos docentes e dos pais, um verdadeiro propósito de ajudá-los.

É muito eficaz saber, por experiência, como funcionam esses agentes da vida mental, os pensamentos, e saber também o que fazer e como fazer para criar uma antideficiência, para fazer surgir a virtude, anulando um defeito da própria psicologia.

Se o docente já tem um saber real sobre o que se passa em seu mundo interno e já percorreu o caminho que leva à superação de uma falha como a timidez, conseguirá fazer as necessárias adaptações e estabelecer uma ponte sensível entre esse seu saber e a realidade que a criança vive.

Esta é uma das maravilhas da Pedagogia Logosófica: o docente realiza em si mesmo os conceitos, experimenta-os no laboratório da vida diária e, depois, alcança êxito ao transmiti-los ao discente, levando-lhe no conhecimento ministra- do uma parte de sua própria vida.

“Ele empurrou primeiro!”

Crianças de 3 anos brincavam no parque da escola. De repente, um choro alto, cheio de soluços. Era de um menino, que, depois de se acalmar, explicou que a coleguinha lhe dissera que não o deixaria brincar na casinha! Olho para a menina, sua fisionomia denunciava todo o ocorrido. Em conversa com ela, fico sabendo que: Ele empurrou primeiro! Os dois haviam errado. Expliquei-lhe que ele estava ferido por dentro e que aquilo era até pior que o empurrão. Ela argumentou, defendendo que aquela casinha era só para meninas. Seguimos conversando, e eu levantando toda a parte boa do menino. De longe, olhávamos para ele brincando. Eu ia enumerando para ela as qualidades que observava nele: nunca o tinha visto brigar, nem empurrar alguém, um menino que era amigo de todos, etc. Propus, então: Que tal você ir lá falar alguma coisa com ele, chamá-lo para brincar, fazer um carinho!? Aceitando o desafio, prontamente, ela foi. Dava uns passos, me olhava, eu fazia sinal de positivo para ir. Quando chegou perto, não teve coragem. Estava inibida, desviou-se e foi subindo a escada. Chamei-a discretamente, fiz-lhe um sinal com o dedo, estimulando-a a ser valente. Ela desceu a escada e me olhava… até chegar ao menino. Então se abaixou, fez um carinho no braço, ele sorriu – e ela, como que num gesto cheio de ternura, o abraçou e lhe deu um beijinho na bochecha, saindo toda feliz! Ele, um menino tímido também, sorria por tudo ter ficado bem. E toda essa maravilha em minutos, num exemplo de superação escrito aos 3 anos de idade! Venceram o amor-próprio, a timidez, tiveram uma conduta digna, cheia de valor, honrosa!

 

Jaqueline Miotto Zolet

Assessora Educacional no Colégio Logosófico – Unidade Chapecó. Graduada em Administração pela Unoesc e em Pedagogia pela Unopar. Autora de livros infantis.


 
 

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