O princípio consciente: uma experiência com adolescentes
31 de janeiro de 2016 | Eduardo Barbosa e Marise de Alencar

A disciplina Atualidades Temáticas foi introduzida em 2011 na Unidade Funcionários do Colégio Logosófico em Belo Horizonte, na última turma do Ensino Médio, com o objetivo principal de formar no aluno uma visão analítica sobre temas da atualidade, favorecendo sua capacidade de pensar, entender e analisar questões que afetam o ser humano em vários aspectos de sua vida. Outro objetivo é oferecer ao aluno elementos de reflexão relacionados às necessidades próprias da fase de formação em que se encontra, contribuindo para a construção do próprio futuro.

 

UMA DAS BASES DA VIDA CONSCIENTE

A Pedagogia Logosófica oferece ao docente que a aplica inúmeras diretrizes, conteúdos e recursos pedagógicos para a formação humana do adolescente.

O grande desafio para o professor é alcançar a capacidade de entender e aplicar todo esse arsenal pedagógico. E torna-se ainda maior quando se sabe que o docente deve ser o primeiro a realizar aquilo que quer ensinar aos alunos, especialmente no que se refere ao conhecimento e uso consciente dos recursos da inteligência e da sensibilidade.

Eis aí uma diferença básica entre a proposta da Pedagogia Logosófica e outras propostas de educação.

O presente relato aborda um dos aspectos que a Pedagogia Logosófica ressalta como primordiais na educação das crianças, adolescentes e adultos: o chamado “princípio consciente”. Este conceito, dizendo de forma resumida, se refere à capacidade de diferenciar a função de pensar da atuação dos pensamentos.

Para a Logosofia, o ser humano tem condições de conhecer o funcionamento de seu mundo interno e de saber distinguir quando está pensando de quando está atuando sob a influência de um pensamento. E isso, para a Logosofia, é uma das bases da vida consciente.

 

O DESAFIO DE ENSINAR A PENSAR

No início do ano de 2011 e no de 2012, foi realizada uma pesquisa com os alunos do 3o ano com a finalidade de identificar o perfil da turma, os temas de seu interesse e, principalmente, o que gostariam de aprender com as aulas de Atualidades Temáticas.

A pesquisa revelou um conjunto de adolescentes inquietos e ansiosos por uma orientação segura para suas vidas. Vejamos um resumo ilustrativo das expectativas manifestadas por eles:

  • ter maior capacidade de pensar e opinar quando estou diante de diferentes pontos de vista sobre assuntos atuais;
  • compreender melhor o mundo em que vivo e também o ser humano;
  • aprender a pensar e organizar meus pensamentos e ideias;
  • entender melhor o que acontece no mundo;
  • ser capaz de ter opinião própria sobre assuntos da atualidade;
  • compreender melhor os problemas humanos e apontar soluções;
  • entender como o ser humano pode ser a causa de problemas.

Na lista, identificamos uma aspiração que pode ser considerada um ponto comum: o adolescente quer aprender a pensar e sente que isso será muito importante para sua vida.

Sabendo da importância que a Pedagogia Logosófica atribui ao exercício consciente da função de pensar como parte indispensável do desenvolvimento da inteligência, foi planejada uma sequencia de aulas sobre O Exercício de Pensar, ministradas às turmas de 2011 e 2012.

Durante essas aulas, os alunos foram solicitados a completar afirmações sobre esse tema e a explicar suas respostas, fosse concordando com as afirmações recebidas, fosse discordando.

 

OS ADOLESCENTES FALAM SOBRE O ATO DE PENSAR

Para melhor conhecer o que os alunos compreenderam sobre o uso da função de pensar e sobre a atuação dos pensamentos, damos a seguir uma pequena amostra das respostas apresentadas nas turmas de 2011 e 2012:

 

  • Pensar é muito diferente de imaginar.
  • Enquanto pensar é um exercício de elaboração de conhecimentos, usando a inteligência em situações reais da vida, imaginar pode ser um simples ato de produzir e reproduzir ideias na mente.
  • O pensar é fazer uso da razão para tentar comprovar a validade das ideias.
  • Fazer perguntas inteligentes estimula a função de pensar, porque uma pergunta inteligente não é uma pergunta óbvia. Para respondê-la, será necessário, provavelmente, fazer um grande exercício mental, o que é um enorme estímulo para pensar.
  • O hábito de pensar antes de falar pode ser útil em muitos aspectos da vida, porque é muito prejudicial a pessoa se render ao pensamento de impulsividade. Depois de pronunciadas, não se podem apagar as palavras e, quando se age por impulso, acaba- mos dizendo aquilo que não devíamos dizer, ou que no fundo não queríamos.
  • Quando você pensa antes de falar, é possível organizar melhor as ideias e formular também melhor as frases, evitando a possibilidade de ferir alguém ou acabar sendo indiscreto com você mesmo ou com os outros.
  • Quem não pensa tem a mente indefesa e fica sujeito a muitas influências do ambiente, porque não tem a capacidade de formar uma mentalidade crítica.
  • Quem não pensa não tem uma ideologia própria e tende a aceitar qualquer pregação que lhe é apresentada.
  • Quando abdicamos do direito e dever de pensar, viramos verdadeiras marionetes, facilmente controladas pelo “ventríloquo” que se disponha a isso.

Essas manifestações deixaram claro que os alunos alcançaram uma capacitação mental suficiente para expressar seus entendimentos sobre conceitos complexos, relacionados com realidades de sua vida interna: mente, função de pensar, pensamento, imaginação, etc.

Atribuímos essa capacitação a ações docentes específicas, aplicadas na escola sob orientação da Pedagogia Logosófica. São resultados educacionais e de formação para a vida que não têm relação de causa e efeito com o ensino dos conteúdos curriculares vigentes.

 

EXPERIMENTANDO A DIFERENÇA ENTRE PENSAR E PENSAMENTO

Em 2012, surgiu a ideia de fazer um trabalho mais específico e experimental com alunos do 3o ano do Ensino Médio sobre o princípio consciente. A principal finalidade dessa fase do trabalho foi avaliar a capacidade desses alunos de observar as diferenças entre atuar pensando e atuar sob a influência de um pensamento.

Queríamos, também, avaliar em que medida eles seriam capazes de comprovar, experimentalmente, as vantagens da atitude de pensar como forma de organizar a vida, resolver situações, selecionar pensamentos e atos, estudar melhor, tomar decisões e ter domínio sobre as próprias ações e reações.

Com esse propósito em mente, elaboramos um projeto que recebeu o título de Aluno pensante x Pensamento alienante. Foram convidados seis alunos para participar dessa experiência, que ocorreu durante o segundo semestre de 2012.

Fizemos uma primeira atividade para explicar a eles os objetivos do projeto e o que esperávamos ao final dele. Ao todo, realizamos quatro reuniões mensais de acompanhamento, registro de observações e análise de experiências.

Durante o projeto, alunos e professor puderam conversar, esclarecer dúvidas, comentar percepções e ampliar constatações. Elaboramos um texto, dentro da concepção pedagógica da Logosofia, que foi tomado como referência por todos, com noções dos conceitos de pensamentos, função de pensar e princípio consciente – conceitos esses considerados fundamentais na experiência.

A tarefa dos alunos consistiu em registrar suas observações e analisar, segundo sua compreensão, se sua ação, atitude ou conduta se deveu à atuação do pensar ou de pensamentos. Para os casos em que os pensamentos tivessem sido a causa, pedimos também que procurassem identificar qual foi o pensamento que atuou. Pedimos, ainda, que observassem as vantagens de atuar pensando.

 

O QUE OS ADOLESCENTES PUDERAM OBSERVAR

Durante o projeto, o professor responsável pela disciplina Atualidades Temáticas trabalhou em conjunto com o grupo de alunos, inclusive em situações de conversa formal, recolhendo deles o relato de suas observações e experiências.

Em agosto de 2012, desenvolveu-se uma atividade da qual alguns trechos vão transcritos de forma condensada a seguir:

Professor: – O que vocês observaram em relação à tarefa que foi proposta? (Fazer observações e tentar identificar se você está atuando pensando ou está sob a influência de um pensamento.)

Aluna A: -No dia a dia é difícil ficar durante um tempo observando o que está acontecendo na mente. Eu acho que o problema é conseguir parar para observar se o que está atuando é você ou são seus pensamentos.

Aluna B: -Eu observei a influência de pensamentos mais em situações de convívio social. Alguém fala uma coisa com você e tenho que pensar para ver se o que está sendo falado é certo ou não. No assunto das cotas para universidade, por exemplo, ouvi dizer que era certo e também que era errado. Mas tive que pensar para formar minha própria opinião.

Aluno C: -Eu observei que essa questão do pensamento alienante está muito presente no ambiente escolar, no sentido das influências do pensamento de massa. Quando a gente está no colégio, tem muito a tendência de seguir o pensamento que predomina na turma. Surge um pensamento e ele se propaga na mente de vários alunos, e tende a ocupar a nossa mente também.

Aluno D: -Eu percebi que a atitude pensante é aquela que difere da atitude alienante, no sentido de que o momento em que você pensa é o momento em que observa que você está sujeito a uma influência, mas você quer agir diferente dessa influência. Explicando melhor, eu observo que há essa influência, mas que eu quero fazer diferente. Quero mostrar o meu caráter, o que eu realmente penso, e não o que eu sou induzido a pensar.

Aluna E: -Certa vez, me deixei levar pelo pensamento de alguns colegas. Aí, o que aconteceu foi que depois houve um arrependimento do grupo em relação ao ocorrido. Nesse momento, eu parei para pensar que, se eu não tivesse ido a favor do grupo, desse pensamento de massa, se eu tivesse usado minha faculdade de pensar para me posicionar de maneira diferente, não teria acontecido comigo o desgaste que houve.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Identificar, classificar e selecionar pensamentos é algo que depende de uma capacidade de abstração que não é comum na adolescência. Da mesma forma, alcançar um conceito claro e experimental do que são as funções da mente, especialmente da função de pensar e de seu exercício voluntário e consciente, é uma tarefa de razoável complexidade, que não é fácil mesmo para adultos que já estudam e praticam essa concepção há mais tempo.

Apesar dessa realidade, o grupo de alunos alcançou uma compreensão da diferença básica entre o que é atuar pensando e o que é atuar sob a influência de um pensamento. Pelo menos no plano conceitual, são percebidos resultados do trabalho realizado em torno do que é o princípio consciente.

Pelos muitos relatos feitos, a maioria referindo-se ao cenário escolar, onde os alunos passam grande parte do tempo diário, ficou evidente um esforço por entender e identificar as forças que atuam no mundo interno de cada um. Isso faz supor que um trabalho mais intenso, e com mais regularidade, haverá de gerar resultados mais profundos e abrangentes, podendo chegar a produzir mudanças na vida.

Considerando o que os alunos manifestaram no início do ano como expectativa ante a disciplina Atualidades Temáticas, considerando também suas respostas ao Exercício de Pensar e os relatos que apresentaram no projeto que deu origem a este trabalho, nossa conclusão é a de que o princípio consciente pode ser compreendido e experimentado pelos adolescentes, com repercussões importantes em suas vidas.

Vários depoimentos apresentados por eles são autoexplicativos, indicando uma compreensão clara da diferença entre uma conduta ou atitude movida por um pensamento e uma conduta ou atitude movida por um ato voluntário e consciente, resultante do uso da função de pensar.

 

Eduardo Fernandes Barbosa.

Professor de Atualidades Temáticas no Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Engenheiro. Doutor em Ciência da Computação. Professor da UFMG. Consultor de Planejamento e Gestão de Projetos Educacionais. Coautor do livro Trabalhando com projetos: planejamento e gestão de projetos educacionais.

Marise Nancy de Alencar.

Coordenadora Pedagógica do Ensino Médio do Colégio Logosófico – Unidade Funcionários/Belo Horizonte. Pedagoga pela UEMG. Especialista em Alfabetização e Educação Infantil pelo CEPEMG. Mestre em Educação Tecnológica pelo CEFETMG.


 
 

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