O poder da observação
31 de janeiro de 2016 | Valéria Aparecida Mendonça

Para a Pedagogia Logosófica, a observação é uma faculdade da mente que,bem utilizada,se faz eminentemente aperfeiçoadora das qualidades humanas, ou seja, leva a pessoa a superar tudo quanto deva ser superado, permitindo colher elementos úteis ao próprio bem e ao bem dos demais.

Voltando o olhar à história da humanidade, constatamos que a observação tem sido um importante recurso utilizado pelo ser humano em suas descobertas e invenções. Em diversos momentos da História, ele soube usar essa grande prerrogativa, o que lhe possibilitou extrair da Natureza – expressão da inteligência de Deus e sua maior fonte de inspiração – conhecimentos que o levaram a criar coisas maravilhosas, tanto em benefício próprio quanto no da humanidade.

É impressionante o extraordinário avanço já alcançado pelo homem em todas as áreas do domínio científico e tecnológico, numa demonstração da potência da mente com que foi dotado. Por outro lado, o descontentamento, a desorientação e a insatisfação, experimentados por muitos diante da vida, têm sido cada vez mais generalizados entre as pessoas. É uma situação que evidencia um paradoxo: apesar do progresso científico-tecnológico no campo material, esse mesmo homem nos parece cada dia mais triste e carente.

Temos de lembrar que, lamentavelmente, muitas das conquistas da ciência e da tecnologia constituem, hoje, perigos que atingem muitos, em especial nossas crianças e jovens. Diante disso, é natural que algumas reflexões venham a nossa mente:

Por que muitas descobertas e invenções, ao invés de colaborarem para a felicidade do ser humano, têm trazido a ele tantos problemas? Se o benefício desses avanços era tão evidente, e se os esforços empre- endidos obedeceram a inspirações quase sempre tão nobres, o que faltou? Será que o erro está na tecnologia? Na ciência? Ou no uso que fazemos de seus frutos?

Novamente, temos de fazer prevalecer a observação, mas a observação conscientemente praticada, dirigida desta vez para o próprio ser interno, onde sempre é fácil constatar a existência de movimentos favoráveis e desfavoráveis à felicidade de cada um de nós. Vemos, ali, a presença de bons pensamentos, assim como a resistência que pensamentos antigos e negativos contrapõem ao nosso propósito de ser melhores, de fazer sempre o bem, valendo- nos dos elementos positivos colhidos dessa mesma observação e das demais experiências da vida.

Para que todo conhecimento cumpra seu papel fundamental de favorecer a vida do ser humano, é preciso que a observação se volte tanto para o que está fora, a Natureza e o mundo, como para a realidade que palpita dentro de nós mesmos, constituída por sistemas, mecanismos, energias, recursos, etc. Essa realidade interior não pode estar dissociada do mundo que nos cerca, e nosso olhar deve conduzir a observação e a inteligência nas duas direções. É essa observação dos fatos e coisas do mundo íntimo que nos facultará a utilização, em benefício próprio e de todos, dos conhecimentos que tenhamos adquirido.

A criança tem, desde a mais tenra idade, a faculdade de observar muito desenvolvida. Com que facilidade e rapidez ela percebe qualquer novidade no espaço que a rodeia, atentando para detalhes da nossa forma de vestir, de pentear, ou para aspectos de nossa fisionomia… Cabe a nós, educadores, contribuir para o aprimoramento dessa observação, a fim de que ela cumpra finalidades superiores em termos de aperfeiçoamento individual. Que a criança aprenda, também, a voltar esse olhar para dentro de si mesma, que se encante com as maravilhas que ali podem ser observadas e conhecidas, assim como se encanta com a cena de um animalzinho cuidando de sua prole ou com o desabrochar de uma flor.

Um outro aspecto da observação diz respeito ao grande valor que ela adquire na convivência com os demais. Quando somos capazes de perceber na fisionomia do semelhante aquilo que ocorre em sua intimidade, colocamo-nos em sintonia com seu pensar e sentir, podemos ser mais bondosos em nossos julgamentos, mais estimulantes em nossas ações.

A isso devemos acrescentar que as observações efetuadas sobre os demais devem também contribuir para o nosso melhoramento individual, pois da observação justa e inteligente surge a capacidade para corrigir os próprios defeitos. Cada semelhante se converterá num espelho no qual cada um haverá de ver projetada sua imagem.

Dessa forma, a observação possui uma função específica: para a Pedagogia Logosófica, trata-se de uma faculdade da mente que, bem utilizada, se faz eminentemente aperfeiçoadora das qualidades humanas, ou seja, leva a pessoa a superar tudo quanto deva ser superado, permitindo colher elementos úteis à prática do bem, a começar pelo bem que se faz a si mesmo.

A observação é também uma faculdade que alimenta as demais, oferecendo a elas muitos elementos que favorecem o seu movimento, como é o caso das faculdades de refletir, entender e pensar. A criança deve iniciar-se no aprendizado de sua utilização de forma ampla, ou seja, observando com os olhos voltados para fora e para dentro, encontrando nesse poder um dos elementos fundamentais para uma vida realmente produtiva e feliz.

 

Valéria Aparecida Mendonça

Pedagoga pela UFGO / Especialista em Orientação Educacional UFGO / Pós-graduada em Matemática UFGO / Diretora Pedagógica Geral – Unidade Goiânia


 
 

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