Considerações sobre acontecimentos que ocorrem na infância e na adolescência
30 de janeiro de 2016 | Carlos Bernardo González Pecotche

A mente da criança é terra virgem e fértil. Constitui, pois, não só uma necessidade, mas também uma obrigação moral e racional ineludível, contribuir para que germinem, nos pequenos mas fecundos campos mentais da criança, sementes ótimas, sementes que contenham em possibilidade de manifestação os recursos que a inteligência do homem necessita para emancipar-se de toda pressão estranha a seu pensar e sentir, e para vencer as dificuldades que há de enfrentar no curso da vida.

Destacamos como nocivo e como um total desacerto, causa de grandes prejuízos para a existência humana, qualquer idéia ou crença que se inculque na criança e que seja contrária à verdade ou realidade que ela, já adulta, haverá de comprovar por si mesma. A mente infantil é sensível por excelência. Grava de forma quase indelével as imagens que os maiores plasmam nela como sugestões. É o que acontece, por exemplo, quando se infunde na criança o temor a Deus, provocando- lhe uma angústia tão inútil como perniciosa para sua formação psicológica e moral, sem ter ela cometido ainda falta alguma e sem ter a menor idéia do que é um agravo à moral, à decência ou à honradez.

Também se lhe inculca o temor ao diabo, assustando-a com o chamado “inferno”. Nenhuma dessas imagens é construtiva, e ambas, ao contrário, a deprimem extremamente, já que, carente a criança de defesas mentais, abandona-se à influência de uma sugestão que intumesce certas zonas de sua mente, produzindo a “psiqueálise”, ou seja, a paralisação de uma parte de seu sistema mental, justamente na zona onde seu espírito pode manifestar-se com vistas a reinar em sua vida e conectá-la ao arcano de sua própria herança.

Como se vê, a errônea intervenção dos maiores em sua função de preceptores espirituais, de pedagogos ou pais na formação moral, mental e psicológica da criança é causa dos desvios que a juventude hoje padece, com a conseqüente preocupação geral, da qual quase ninguém escapa. Considerando a importância dessa causa, apresentamo-la hoje à consciência de todos os seres humanos, tendo em vista a solução que tão aflitivo problema exige.

É necessário favorecer nas crianças as manifestações tutelares de seu espírito, evitando tudo quanto possa anular seu inestimável auxílio. Para tanto, não se devem plasmar em sua mente pensamentos, idéias ou palavras que as inibam ou restrinjam sua liberdade de pensar. Tampouco se devem oferecer a elas deprimentes espetáculos morais de família ou deixar que escutem relatos de fatos delituosos, por não estarem em idade de ompreendê-los. Deve-se, isso sim, estimulá-las no amor a Deus, fonte de toda a Sabedoria; mas que esse amor se manifeste como elevada vocação para o estudo e conhecimento ulterior das verdades, na dimensão que a cada um é dado conhecê-las, isto é, na medida da capacidade individualmente alcançada.

Quanto ao amor aos pais, irmãos e semelhantes, já não se trata tanto de matéria de ensinamento, senão de exemplo. Nisso, como no erro que anteriormente apontamos, é onde falha a maioria. Poucos são em verdade os que, com o exemplo, inspiram esse amor profundo que cada filho deve sentir por seus pais. Poucos são em verdade os irmãos maiores que, com seu exemplo, ensinam aos menores o culto ao afeto ou ao respeito recíproco. E que diremos do que ocorre de semelhante para semelhante, quando se carece de elementos básicos para a estruturação moral capaz de manter uma convivência feliz?

Se o espírito percebe que o ser a quem ele anima é ajudado no favorecimento de sua evolução, se vê que não lhe são impostas idéias ou crenças que repele por inoperantes, ele próprio se converte em fator determinante de seu pensar e sentir, os quais, embora incipientes na criança, constituem a base sólida de sua sadia e ampla formação mental, moral e espiritual.

Queremos com isso significar que o espírito não nasce com o ser humano, sendo, isso sim, o ente imaterial que se vai formando no curso de nossas vidas com aquilo que tenhamos sido capazes de acumular na qualidade de patrimônio extrafísico próprio. Contém o provado cabedal da própria herança, o que significa, sem dúvida, que a dimensão de sua experiência e de sua idade é maior que a do ser físico a quem anima, pois é a soma dos valores extraídos de cada período de vida do ser individual, seja neste mundo, seja no mundo mental ou metafísico.

Pensamos haver explicado com suficiente clareza as dimensões desse fundamental conhecimento, que revela até que ponto se estendem as possibilidades humanas, e em que medida tudo isso foi ignorado por parte daqueles que, se o soubessem, teriam o dever de ensiná-lo a toda a humanidade. Ao não fazê-lo, provaram sua incompetência e confessaram suas infrutíferas tentativas de ir além das reflexões comuns.

Seguindo a ordem dessa exposição, fruto de detidas investigações combinadas com a aplicação de conhecimentos logosóficos que penetram a fundo nas complexas articulações da psicologia humana, apontaremos agora um acontecimento que se verifica em todas as almas ao chegarem à puberdade. O despertar dessa idade crítica traz, como conseqüência, o retraimento do espírito. É justamente nessa idade, a mais necessitada de noções precisas sobre o espírito, que o ser se encontra órfão de toda explicação ilustrativa além daquelas que os maiores costumam lhe dar de forma ambígua e confusa. Apenas de passagem, não esqueçamos que estes, por sua vez, receberam de outros, em seu tempo, conceitos igualmente errôneos.

O retraimento que o espírito se impõe, como surgimento da adolescência, ocorre porque, nessa idade, o instinto toma força, surgem as paixões, e o ente físico se vê de repente submerso no mais cru materialismo. E aqui devemos destacar um fato que se repete uma infinidade de vezes: o espírito sofre, em tais circunstâncias, um eclipse que chega em muitos casos a ser quase definitivo. Não se notam, com efeito, nem sequer vestígios de sua existência nos pensamentos, idéias ou atos de um sem-número de seres que terminam suas vidas em irreparável declínio.

Vejamos, agora, como se pode neutralizar a influência do instinto durante a puberdade e evitar que anule a do espírito. No campo experimental das atividades logosóficas, pode-se comprovar que a atenção especial consagrada às crianças, com o emprego do método logosófico, lhes permite entrar na puberdade sem que sejam surpreendidas por temores, coibições e toda essa gama de sugestões que o despertar do sexo traz consigo. É precisamente nessas circunstâncias que afloram na mente e no sentir do adolescente as imagens sombrias que lhe foram inculcadas na infância. O temor a Deus o escraviza e oprime, não lhe permitindo refletir sobre suas próprias dificuldades. Acossado pelos pensamentos, sente-se quase um infrator das leis naturais. Isso geralmente o leva a cometer imprudências e desacertos que agravam cada vez mais seu desamparo moral. A Logosofia previu essa inquietante situação a que é submetido o adolescente por carecer de recursos para enfrentar a inevitável passagem entre uma idade e outra. Ensina-lhe a criar suas próprias defesas mentais e o guia no conhecimento gradual das contingências que deve enfrentar, para que as resolva pela via natural da reflexão serena dos fatos. Dessa maneira, consegue-se que o espírito mantenha sobre o ser sua influência como na infância; e é na força mental e psíquica que ele lhe ministra que o adolescente encontra o ponto de apoio para não se desencaminhar em tão delicada prova de sua experiência no mundo.

 

Carlos Bernardo González Pecotche


 
 

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