Como eu posso saber o que está dentro de outra pessoa se eu não vivo dentro dela?
8 de julho de 2018 | Mara Lúcia Will Minsky

Observamos com interesse e até um certo assombro os avanços tecnológicos em benefício da humanidade. Por exemplo, na medicina, a busca por novos medicamentos, novos aparelhos e exames que permitem mais precisão e uma expectativa de vida muito mais saudável e confortável. O conhecimento em várias áreas tem ampliado as possibilidades de acerto e, com isso, as pessoas podem antecipar atitudes. Observamos muitos casos em que doenças graves, ao serem diagnosticadas precocemente, recebem tratamento e prolongam a vida das pessoas ou tornam o processo menos doloroso aos pacientes. Observamos em muitas outras áreas, tecnologias que aproximam as pessoas, como internet, celular, maquinários e utensílios que tornam a vida mais prática no dia a dia.

Esses avanços e facilidades, proporcionados pela tecnologia, deveriam promover também pessoas mais felizes, realizadas, gerar mais tempo para a convivência, mas não é o que tenho observado como educadora. A pergunta de uma mãe a outra, que relatava que não tinha televisão em casa, dá mostras do quanto a causa de todo sofrimento está em uma evolução humana que ainda é lenta e, de certa forma, desconhecida. Essa mãe perguntava: como você faz com seu filho em casa sem televisão?

O autor da Pedagogia Logosófica ensina:

Não há mais terras a descobrir; os gritos da própria ciência emudecem ante realidades que não sabe compreender; o conforto enfastia porque se desfruta demasiado dele; as diversões relaxam o espírito pelo abuso que se faz delas. (PECOTCHE, 2011, p. 101)

Diante de tanto sofrimento humano que a tecnologia não consegue resolver, o que resta para a geração atual? O que falta para a humanidade descobrir? A pergunta de uma criança de 4 anos: como eu posso saber o que está dentro de outra pessoa se eu não vivo dentro dela? nos dá uma direção, nos indica para onde a humanidade deve caminhar.

Essa inquietude de uma criança é o que move toda a humanidade a buscar respostas. As inquietudes demonstram que existem perguntas ainda sem respostas e que ainda procuramos soluções em algo fora de nós.

Existe uma doença, na qual as causas estão em uma parte da vida do ser humano ainda desconhecida para ele, a doença do vazio. Assim como algumas doenças podem ser curadas se identificadas no início, a doença do vazio pode ser prevenida se, desde a mais tenra idade, a criança receber conceitos e valores permanentes para a sua vida. Se desde cedo ela aprender a conhecer o que faz parte do seu mundo interno, da sua herança individual e, principalmente, se ela é ensinada a buscar as causas dos acontecimentos da sua vida onde eles são gerados, que são os pensamentos.

Desde cedo, as crianças são ensinadas no Colégio Logosófico sobre a imagem da Casa Mental. Uma analogia que permite compreender que, assim como cuidamos, organizamos, limpamos e só deixamos pessoas conhecidas entrarem em nossa casa, em nossa mente também podemos conhecer, identificar e selecionar os pensamentos. Buscando atuar com aqueles que nos levam a ser conscientes, melhores e que sejam um exemplo do bem a ser feito. Essa imagem permite ensinar para as crianças que, assim como existe a vida física, existe uma vida que transcende ao físico.

Outro recurso lúdico são as músicas que, ao transmitirem conceitos reais e permanentes, auxiliam no trabalho pedagógico para levar para as crianças esses conhecimentos sobre o seu mundo interno. Esse recurso foi utilizado em uma turma de crianças com 4 anos. A professora dividiu a turma em equipes e solicitou que as crianças prestassem atenção na música. Explicou que deveriam ouvir e, a seguir, conversariam sobre ela. A música escolhida chama-se “Duas vidas”. A seguir foram feitas as seguintes reflexões com as crianças: olhando-me no espelho, o que vejo? E dentro, o que tenho? Quem sou eu? Consigo enxergar dentro de mim? O que gosto de fazer? Após esses movimentos, foi levado para as crianças que temos duas vidas, uma fora (externa) e uma dentro (interna), ainda se observando no espelho, as crianças desenharam a si mesmas. Esta atividade será repetida ao longo do ano, com perguntas que colaborem na ampliação do conceito e estimulem as crianças a pensar sobre quem querem ser e o que farão para realizar o que querem.

Ao serem ensinadas sobre a vida interna, que prerrogativas se abrem na vida dessas crianças? O avanço para a superação. Poder conhecer a causa de seus acertos e de seus erros. Poder analisar suas atitudes e planejar ações futuras. Ter a prerrogativa de ser melhor do que é. Encontrar as causas e assim efetivamente poder ajudar a si mesmo e ao semelhante.

Um dia, uma mãe relatou emocionada que o seu filho de 3 anos pediu que ela desligasse a televisão, pois o desenho não estava fazendo bem para sua casa mental. Que conhecimento permite uma criança de 3 anos selecionar o que lhe faz bem e o que não faz? O conhecimento dos pensamentos, o saber identificar as sensações que causam dentro de si mesmo o que está vendo, lendo e ouvindo. Mas isso só é possível quando diariamente se pratica o voltar-se para si mesmo. Quando a criança é constantemente estimulada a estar em contato com essa vida que há dentro de si mesma. Quando a criança é ensinada a conhecer seus pensamentos, seus sentimentos, seus valores. Pois neles estão as causas e as respostas para suas mais profundas inquietudes.

A evolução que a humanidade necessita realizar hoje é a evolução dessa vida interna, obter conhecimentos que permitem resolver problemas que não são físicos, mas que repercutem em toda a vida do ser. Observamos que quanto mais as crianças aprendem a identificar os pensamentos, mais elas escolhem os que permitem a convivência mais harmônica consigo mesmas e com o semelhante.

Se os avanços tecnológicos permitem uma vida mais saudável e confortável, é chegada a hora de aprendermos a cuidar dessa vida interna. Quanto mais conhecermos os sintomas que afetam o desenvolvimento dessa vida, mais teremos recursos e conhecimentos para cuidar dela. Como ensina o autor da Pedagogia Logosófica:

O que fica, então, por fazer às gerações de hoje?…A Logosofia responde: fica o mais grandioso que existe para realizar e que, nesta grande etapa, as gerações de hoje e as vindouras terão que cumprir: o avanço para as altas regiões do entendimento; o esforço por levar o ser, como alma humana, para o encontro de sua própria explicação como ente físico; para a eternidade que não tem sabido compreender ao viver um tempo peremptório, sem valor algum. Em outras palavras: o avanço para a superação. (PECOTCHE, 2011, p. 101)


 
 

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