Cada coisa em seu lugar: será mesmo o melhor?
26 de novembro de 2018 | Vera Lúcia Amaral de Melo Souza

 

Se você é daquelas pessoas que gostam de tudo bem arrumado, e para quem nada pode ficar fora do lugar, pode ser bom para você ler o que tenho pra contar. Uma experiência marcante em minha vida de mãe.

Um de meus filhos, quando pequeno, tinha dificuldades com organização de espaços. Por onde passava, deixava tudo fora do lugar: brinquedos, tênis, livros, mochila… Você pode pensar que eu tinha dificuldades para lidar com aquilo, e tinha mesmo. Claro que me incomodava!.

Eu havia tentado muitos recursos – teatrinho, conversas, histórias, arrumar junto, combinados, ficar brava. Tudo! Até um boneco cheguei a comprar para representar o pensamento de organização, e lhe demos o nome de Ordenildo, mas… não via muitos progressos.

E veja o tamanho de minha limitação – com tantos outros valores que ele possuía e possui como ser humano, aquele pontinho continuava a me incomodar. Quem estava realmente errando – ele ou eu? Já respondeu rapidinho aí, não foi? Aquilo na vida de uma criança não tinha o menor valor, mas, naquele momento eu não era capaz de ver assim.

Até que um dia, a vida me ofereceu uma linda oportunidade de enxergar meu erro e me ampliou a consciência, colocando as coisas em seus devidos lugares. Mas, não no quarto de meu querido filho, e sim dentro de mim!

Numa tarde quente de verão, fui visitar uma amiga que havia perdido um filho, da mesma idade do meu. No decorrer de nossa conversa, ela, muito emocionada, me disse: “Me dói muito passar na porta do quarto dele, e estar lá tudo arrumadinho no lugar…”

Ao ouvir aquilo, passou-se um filme em minha mente, e senti um grande aperto no coração. Certamente, primeiro pela dor de minha amiga, e depois por mim mesma. Isto mesmo: por mim mesma! Não mencionei nada do que ocorria em meu interno, mas o que ela falou tinha tido um grande impacto em mim.

Voltei para casa bastante reflexiva… Ao chegar, fui logo ao encontro daquele muito querido filho. Já na porta de seu quarto, o vi tranquilo estudando em sua mesa. A emoção tomou conta de mim. Tênis para um lado, mochila para o outro, livros no chão… Mas, que insignificante era tudo aquilo!

Abracei meu filho, sem que ele nada soubesse sobre o que se passava dentro de mim, experimentando profunda gratidão a Deus por tê-lo em meus braços, vivo e tão bem! Foi uma lição para mim.

E daí para frente você pode imaginar o que aconteceu. Por imperativo da consciência eu tratei de mudar minha postura, me ocupando muito em superar minha impaciência, rigidez, intolerância com aquilo que era tão, mas tão insignificante frente ao muitos valores de meu querido filho e o grande que é a vida!

Mas, você pode estar se perguntando: E como ficou o assunto da organização? Seguiu sendo trabalhado ao longo dos anos, porém como um valor importante para a vida, como um cultivo interno sereno e sem conflitos, deixando de ser uma exigência para atender às minhas expectativas. E fomos colhendo pelo caminho, e até hoje, muitos resultados felizes de todos os esforços realizados em conjunto. Não mais pensando no circunstancial, no momentâneo, em atender aos meus caprichos domésticos ou qualquer outra coisa desta índole, mas sim, na construção de valores reais e permanentes que nos tornam seres capazes, valentes e verdadeiramente conscientes, livres e humanos.


 
 

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