Atenção e observação no teatro e na prática do bem
31 de janeiro de 2016 | Franciole Ferreira da Silva

Sou professora de Artes Cênicas e, num dos trabalhos com os alunos do 2o ano do Ensino Fundamental, eu objetivava, por um lado, desenvolver suas habilidades de criação de cenas a partir de uma história e, por outro, ampliar seu conceito de bem. Para tanto, idealizei e levei à prática, com eles, um projeto muito especial, baseado no livro A menina da fita, de Ana Gabriela Souza Lemos, professora da Unidade Funcionários do Colégio Logosófico, também de Belo Horizonte.

No teatro, observação e atenção são exercitadas e desenvolvidas, mas de uma forma mais externa, e nesse projeto eu planejei conduzir os alunos a exercer essas habilidades consigo mesmos, voltando-se cada um para os acontecimentos de seu mundo interno. Em consonância com diretrizes da Pedagogia Logosófica, eu queria apresentar aspectos do verdadeiro conceito de bem a eles. Queria, também, ampliar-lhes a consciência sobre os resultados, sobre os benefícios que a prática do bem traz para a vida das pessoas.

Demos início ao projeto lendo A menina da fita, que é todo feito de imagens visuais, sem texto escrito.

No desenvolvimento, examinamos bem o livro, as imagens apresentadas, as atitudes da personagem principal, e as perguntas dos alunos foram ganhando forma e conteúdo:

-Por que a menina fazia tantas coisas boas?

-Quais condições internas podem nos ajudar a fazer escolhas acertadas no sentido do bem?

-Será que podemos ser como ela?

-O que é preciso para fazer o bem?

-Por que ela sempre ficava feliz quando fazia o bem?

 

Refletimos juntos sobre as perguntas e chegamos a algumas conclusões:

Sentindo-se muito estimulados, os alunos registraram em desenhos as atitudes de bem que estavam se esforçando por cultivar. Estimulei ao máximo a formulação de perguntas por eles mesmos, incentivando, com isso, sua função de pensar e facilitando a assimilação dos conceitos com o uso de várias faculdades da inteligência, e não apenas da memória.

Enviamos à autora muitas dessas perguntas. Uma, em especial, me chamou a atenção: Como aconteceram tantos problemas em um mesmo dia? E a autora a respondeu da seguinte forma:

-Apareceram esses problemas todos num dia só, porque, se vocês pararem para observar o dia de vocês, o que não falta são oportunidades de fazer o bem. Então, ela, na verdade, é uma menina atenta. Estava atenta às coisas que estavam acontecendo ao redor dela e aproveitou as oportunidades para fazer o bem. Eu aposto que, se vocês ficarem de olhos bem abertos, vão ver várias e várias situações durante o dia, desde a hora em que acordarem até a hora em que forem dormir, dentro de casa, na escola, com os amigos, com a professora, com a mamãe, com o papai… Vocês vão ver um monte de “problemas” que, na verdade, são oportunidades de fazer o bem.

Ao lermos essa resposta, conversamos sobre quais aspectos, então, seriam importantes para eles não deixarem passar as oportunidades diárias de fazer o bem. Com perguntas, reperguntas e recursos de mímica, consegui que eles chegassem a dizer os dois elementos principais que tinham a ver com a resposta da autora do livro: atenção e observação.

A experiência teve outros desdobramentos, com vistas ao enriquecimento do acervo de conceitos dos alunos acerca do bem. E chegou o momento de prepararmos a peça de teatro. Os ensaios foram muito leves e tranquilos, pois todos estavam fazendo um grande esforço de colaborar, de ter boas atitudes e ajudar os outros.

Não foram poucos os momentos em que pude desfrutar, em silêncio, a alegria íntima de ver um aluno ajudando outro a aprender o texto, aquele se recolocando após alguma atitude inadequada que teve, aquele outro lutando bravamente contra algum pensamento que se opunha ao propósito de fazer o bem, e todos se esforçando para ser melhores.

De minha parte, também me senti muito grata pela oportunidade de estar fazendo o bem ao levar meus alunos a fazê-lo, enquanto ampliavam seu conceito a respeito e realizavam ações de bem numa forma mais consciente.

 

Franciole Ferreira da Silva

Professora de Artes Cênicas do Colégio Logosófico – Unidade Cidade Nova/Belo Horizonte. Bacharel em Artes Cênicas e Licenciatura em Teatro pela UFMG.


 
 

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