A importância do conhecimento de si mesmo e do cultivo de valores internos para uma convivência ética
13 de agosto de 2017 | Andrea Barros e Karina Brandão

A experiência relatada a seguir foi realizada com os alunos dos 4º e 5º anos do Ensino Fundamental e teve, como base, o conhecimento de si mesmo, um dos princípios fundamentais da Pedagogia Logosófica.

Os alunos, orientados pelas professoras, receberam a proposta para observar o seu mundo interno, registrando seus pensamentos, virtudes e dificuldades, estabelecendo propósitos individuais relacionados à conduta, ou seja, foram convidados a tentar identificar o que existe dentro de cada um. O objetivo da proposta era favorecer que, a partir de reflexões sobre “si mesmos”, os alunos pudessem ter uma convivência mais harmônica, feliz e ética consigo mesmo e com os demais.

Tudo começou quando cada aluno recebeu uma caixinha, que se denominou como “cápsula do tempo”; nela foram guardados, por escrito, os propósitos individuais e estabelecido o que cada um faria para cumpri-los, até o fim do ano. Com o objetivo de verificar o que já se estava conseguindo e o que faltava cumprir, a cápsula era aberta mensalmente.

Em sala de aula, com constantes conversas e trocas de vivências sobre como enfrentar as dificuldades, sempre havia a recordação de que ao se perceber um erro, o objetivo deveria ser sempre superá-lo. Era reforçado aos alunos, pelas professoras, que isso errar é natural e que o erro faz parte da trajetória para se conseguir acertar.

Certo dia, como parte do planejamento, foi levada uma caixa para a sala de aula. A turma foi informada que dentro dela havia um tesouro. Um verdadeiro tesouro! Foi pedido que cada um olhasse, um de cada vez, o que havia dentro da caixa, identificando o tesouro e mantendo a descoberta em segredo.

O que havia na caixa era um espelho e, no momento em que cada criança abria a caixa, via refletida a própria imagem. Nesses momentos, todos ficavam atentos nas expressões dos colegas. Tudo transcorreu de forma tranquila e respeitosa. Depois desse momento, conversamos: “O que vocês viram dentro da caixa? Descobriram o tesouro?”

Os alunos foram falando, sorrindo, dizendo suas impressões e concluindo que eram eles mesmos o tesouro e que eram são únicos! A conversa se ampliou e refletiram que precisavam respeitar e ser tolerantes com todos, que as diferenças e as semelhanças podem nos ajudar a ser melhores e, que se prestássemos atenção, poderíamos nos ajudar e tornarmos espelhos uns dos outros.

Nas diversas disciplinas, tentamos inserir atividades e ideias que valorizassem o conhecimento de si mesmo. No projeto anual, O CONHECIMENTO DE SI MESMO: ESSENCIAL PARA O ENTENDIMENTO GLOBAL, foram muitas as oportunidades surgidas. Em Geografia, por exemplo, ao estudar os tipos de vegetação e os lixões, os alunos observaram o papel de cada um na conservação do meio ambiente e qual a nossa responsabilidade para forjar um futuro mais saudável para a humanidade.

Tomar consciência sobre o nosso papel e o valor da natureza é uma das chaves para a preservação. É utilizar os recursos naturais de forma a proteger o meio ambiente sem inviabilizar o desenvolvimento do planeta. É investir na qualidade de vida, por meio de atitudes ecologicamente corretas de preservação. É estar mentalmente preparado para tomar iniciativas de melhoria ambiental.

Fomos conversando com a turma e concluindo que, diariamente utilizamos e descartamos muitos materiais, sem pensar em como eles podem ser reaproveitados. Apesar da cultura da coleta seletiva e reciclagem estarem cada vez mais presentes na sociedade, ainda é difícil enxergar um futuro diferente para o produto descartado. Se para uns o produto acaba ali, para outros, o lixo é a solução.

Como culminação desse trabalho nas aulas de Geografia, foi feita uma dinâmica de observação sobre o que existe no nosso entorno, que é considerado lixo e que poderia ser transformado. Foi uma surpresa descobrir tantas coisas! Foi realizada uma exposição criativa, transformando plásticos, pneus, garrafas, latas, papéis e jornais em novos objetos.

Os alunos descobriram que, assim como preservam o ambiente físico, externo, também podem preservar o ambiente interno, criando lixões de pensamentos. Como? Identificando os pensamentos e selecionando os que serão úteis no cumprimento de seus propósitos e os inúteis que serão descartados, por meio de um constante exercício de observação e atenção.

Nas aulas de História, os alunos observaram a rica diversidade cultural de nosso povo, a partir do estudo realizado sobre a formação da população brasileira. Foi possível identificar algumas características da herança individual de cada um, comprovando o elemento vivo do ensinamento de Pecotche, “(…)Uns tem o que a outros falta e o que a uns falta, outros têm.” Foi uma oportunidade de conhecer valores em si mesmo e no semelhante, valorizando e respeitando as diferenças. Já conseguimos observar mudanças positivas na conduta dos docentes e dos alunos.

Em Matemática, ao trabalhar com jogos, proporcionamos movimentos alegres e o envolvimento entre os alunos. A palavra principal é estímulo. Segundo a Pedagogia Logosófica. “(…) o estímulo é como uma força viva que interpenetra o ser e o satura de novas energias”. É um fator que impulsiona a vontade, “ativa por sua vez a inteligência e o sentimento (…)” Ao propor essas atividades para a turma, fica nítido como o estímulo atua nos alunos no momento do jogo. Há renovação das energias e fica visível o esforço para compartilharem o conhecimento que possuem e os recursos internos que possuem para vencer os desafios apresentados.

As atividades possibilitaram que os alunos identificassem os pensamentos que facilitariam e/ou dificultariam a convivência durante os jogos, cultivando organização, participação, cooperação, tolerância e observação. Proporcionaram uma melhor convivência entre eles, ensinando-os a trabalhar em grupo, favorecendo a assimilação de conhecimentos.

Em Língua Portuguesa, foram trabalhados diversos textos relacionados ao projeto e, nas narrativas, buscávamos os valores das personagens e as razões pelas quais vivem suas experiências. Os alunos escreveram novos textos e, por analogia, repaginaram uma parte de sua vida, uma vez que o texto revela os valores de cada um.

Com a leitura do livro O Diário de Pilar em Machu Picchu, os alunos observaram que o personagem principal buscava sempre sua parcela de responsabilidade nas situações vividas e como essa conduta a auxiliava na convivência e a ser uma pessoa melhor. Os alunos escreveram e ilustraram, em duplas, livros, criando personagens com valores, propósitos e deficiências, respeitando opiniões diferentes, divisão de trabalho, escolha de enredo e de desfecho do mesmo.

Como realizar um trabalho assim, sem o conhecimento de si mesmo? Sem perceber a sua importância para o entendimento entre os seres? A cada capítulo, uma reescrita e a descoberta de algo que pode sempre ser aperfeiçoado em si mesmo.

Escreveram também outro livro, sendo cada capítulo escrito por uma dupla. Quanta interação! Quanta superação! Quanta alegria ao ver o livro impresso e entregue autografado para as famílias! Na criação dos personagens, observamos que estavam presentes as características relacionadas com a atividade do espelho, realizada no início dos trabalhos. Vimos também que os recursos trabalhados para vencer as citadas dificuldades foram apresentados no livro.

Já nas aulas de Ciências, a professora apresentou os tipos de solo e quais são os cuidados que devemos ter ao cultivar uma planta. Aproveitando a observação dos alunos, foi feita uma analogia com o mundo interno de cada um, buscando as sementes que devem ser plantadas para florescer um ser melhor. Todas as questões levantadas eram relacionadas aos conceitos logosóficos que norteiam o processo educacional, nesse caso, o conceito de pensamento, que é vital para exercitar o domínio do campo mental próprio e cultivar nobres sentimentos.

Esse trabalho tem sido uma aprendizagem para todos, pois busca refletir sobre as questões éticas na prática escolar, principalmente no que diz respeito ao agir docente no âmbito do fazer e viver a educação face aos desafios e contradições diários. A mente da criança é terra virgem e fértil e absorve tudo ao seu redor. Por isso a importância de criar um ambiente propício ao seu desenvolvimento para que cultive pensamentos úteis, desenvolvendo o gosto pelo estudo e pela investigação.

O importante é termos em mente que devemos oferecer, sempre, o que há de melhor dentro de nós. A lei de correspondência é inexorável. Herdaremos, cedo ou tarde, o que cultivarmos nos ambientes onde vivemos.

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