A força poderosa do afeto na docência
31 de janeiro de 2016 | Fernanda Cerutti Machado

 

UMA CRIANÇA QUE NÃO ESTAVA FELIZ

Aquela turma do Ensino Fundamental I vivia as alternativas próprias do início de todo ano letivo, isso em 2012. O ambiente físico e os professores (em seu mundo interno) estavam prontos, após dias de preparação. Conforme as crianças iam chegando, a alegria foi tomando conta de todos – pequenos e grandes.

Percebemos, porém, o caso especial de uma criança que não estava feliz. Havia sido transferida de outra escola. Abordada, manifestava que não queria ter vindo. Iniciava-se ali um processo de adaptação em que muito haveria de influir, positivamente, o afeto que permeasse a ação docente.

Levantadas as características do aluno e identificada a causa principal de sua dificuldade, o trabalho foi cercado da necessária compreensão, o que muito ajudaria na paciência e na tolerância – ingredientes básicos para a intervenção do sentimento.

Como início de conversa, buscamos de todas as formas estabelecer com o aluno um vínculo afetivo, sobretudo por meio de uma aproximação individual, em particular, conscientes que estávamos de que esse vínculo haveria de influir quando trabalhássemos com a criança no conjunto.

Mas não houve a mesma facilidade que sempre encontramos noutros casos. As reações apresentadas por essa criança eram muito fortes, e as situações que passamos a viver constituíram todo um desafio.

 

O IMPORTANTE VÍNCULO ESTABELECIDO EXTRACLASSE

Com um invariável carinho, tínhamos de atuar com muita firmeza, estimuladas pela visão dos dias felizes que ainda haveríamos de viver com aquela criança dotada de tão boas condições. Arrostamos com a necessária valentia o pensamento pessimista que nos projetava, como solução, o momento de dizermos para a família que o melhor seria retornar com o aluno para a outra escola.

Quando a criança manifestava que não gostava do Colégio, mostrávamos a ela tudo o que havia de bom nele. Caminhávamos pelo terreno, fazíamos observações sobre os elementos da natureza ali presentes, conversávamos, ouvíamos, e sempre lhe recordávamos que, com o tempo, aquele seu pensamento mudaria. Dizíamos que, para isso ocorrer, seria preciso ele querer, seria preciso também ele confiar no que os pais lhe estavam proporcionando, ou seja, a oportunidade de estudar numa nova e linda escola, onde ele ia ter muitos amigos.

Ao vê-lo atuar com violência contra os colegas, fortalecendo em si o pensamento de que ninguém gostaria de ser amigo dele, nós o corrigíamos com enérgica doçura, mostrando-lhe sempre que a sua atitude não havia sido correta, que para ele ter amigos precisaria ter boas atitudes e que, então, se desculpasse. E íamos além: não bastariam as desculpas; para redimir-se, ele teria de pensar em adotar com os colegas algumas atitudes de bem – e lhe sugerimos oferecer a eles um desenho, um gesto de generosidade, um carinho, entre outras expressões. Enquanto isso, as conversas que ensejávamos entre ele e a coordenadora pedagógica reforçavam o importante vínculo afetivo estabelecido extraclasse.

Diante da resistência que ele apresentou para participar de algumas aulas especializadas – Inglês, Espanhol, Música e Artes –, levamos-lhe, com as explicações sobre a importância desses conhecimentos, estímulos ligados ao gosto por aprender coisas novas, bem como ligados à nossa sincera admiração pela capacidade de aprender que víamos nele.

 

A BOA DISPOSIÇÃO DESPERTADA EM TODOS

Mas as dificuldades tinham um outro flanco: a turma, como um todo, estava reagindo muito com a chegada daquele colega diferente que, ao que parecia, não gostava de fazer novos amigos nem de estar naquela sala. Em conjunto com a coordenação pedagógica, promove- mos conversações com a turma – semanais no início, em seguida quinzenais e, por fim, mais espaçadas –, conforme a necessidade. Nessas conversas, levamos elementos para que todos pudessem colaborar na adaptação do novo colega, sendo compreensivos e tolerantes com suas dificuldades. O cultivo do afeto, portanto, extrapolou a esfera individual, projetando-se para a turma inteira.

Como uma adicional técnica estimulante, promovemos uma atividade intitulada Momento de aprender um com o outro, envolvendo todos os alunos. Cada criança devia preparar, com a colaboração de seus familiares, uma apresentação sobre determinado assunto, a ser feita à turma. Ao fazer sua parte, esse aluno sentiu-se valorizado perante os colegas, o que o ajudou muito na conquista de um lugar cômodo e feliz entre eles. Finalmente, havia conseguido mostrar todo o bem que guardava dentro de si, tanto na forma de conhecimentos específicos como na de atitudes.

Dentro em pouco, fomos percebendo que se despertava nas demais crianças a boa disposição de colaborar com seu novo colega, fazendo com que ele se sentisse bem e feliz no ambiente e lhe explicando afetuosamente quais as regras da escola.

Numa das várias entrevistas que fizemos com as famílias, envolvemos diretamente o pai da criança, expondo-lhe certas situações vividas no âmbito escolar. Este se sentiu preocupado e saiu da entrevista com a firme determinação de colaborar para que o filho avançasse. Foi esse um dos capítulos especiais da experiência, pois pudemos observar quanto pai e filho se vincularam ainda mais, realizando os deveres juntos, estudando juntos para as provas e desfrutando, apenas os dois, algumas atividades de lazer.

A criança, seus colegas, os professores, a coordenação pedagógica, a própria direção da escola, seus pais – todos se haviam envolvido na mesma onda de planejada e consciente assistência afetiva.

Ao chegarmos ao terceiro trimestre, podemos dizer que os frutos colhidos foram muito positivos. Avançamos nós, professoras, e avançou a escola como um todo. Avançou o aluno, que hoje está feliz, rodeado de amigos e plenamente adaptado no seu novo colégio. O vínculo muito estreito que estabelecemos com ele nos relembra, a cada instante, a força poderosa do afeto na docência.

 

Fernanda Cerutti Machado

Professora do Colégio Logosófico – Unidade Chapecó.

Graduada em Pedagogia


 
 

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