A correção da conduta da criança
31 de janeiro de 2016 | Dulce Regina Feu Alvim Moreira

Para saber ensinar é preciso, antes de tudo, saber aprender. Não se pode dar o que não se tem, não se pode ensinar um caminho que não se percorreu. Nada tão claro! Mas isso não significa, absolutamente, que a tarefa seja simples.

“A arte de educar consiste em começar ensinando-se primeiro a si mesmo.”

Eis uma orientação da Pedagogia Logosófica que, aparentemente, aponta para uma obviedade. De fato, ela destaca algo que muitos educadores, pais ou professores já puderam comprovar em suas práticas: para saber ensinar é preciso, antes de tudo, saber aprender. Não se pode dar o que não se tem, não se pode ensinar um caminho que não se percorreu. Nada tão claro! Mas isso não significa, absolutamente, que a tarefa seja simples, como veremos a seguir.

Comecemos pelo fato de que não basta saber algo; é preciso saber ensinar, é preciso saber como ensinar. Isso envolve toda
uma docência, um tato, dosagem, inteligência.

Sob esse enfoque, daremos com as formas corretas e com as formas equivocadas de atuar ao tratarmos de corrigir a conduta da criança. As corretas são aquelas que constroem, enquanto que as outras, geralmente, são as que apenas reprimem.

O educador pode, por exemplo, no intuito de corrigir, utilizar a fórmula fácil do temor, da ameaça ou a da promessa. Pode, também, apontar o erro e ficar nisso, na censura, no castigo. É o procedimento mais comum e, por vezes, o que traz resultados mais imediatos. Entretanto, quando se atua dessa forma, não se propicia o mais importante na alma do educando: a compreensão do erro ante a visão clara da conduta correta a ser adotada, o que abre espaço para o estímulo sincero de mudar. Durante a correção, o educando deve ser tocado em seu entendimento, importantíssima faculdade da mente que é peça básica em qualquer mudança que se queira empreender. O ato de reprimir a má conduta, sem produzir na criança a vontade de mudar, costuma causar depressão, tristeza, insegurança, ressentimento e a sensação de ter sido injustiçada. Se a criança é de temperamento tímido, verá acentuada a falta de confiança em si mesma; porém, se seu temperamento é mais agressivo, rebelde ou argumentador, por falta da compreensão, insistirá na prática do erro, às vezes explicitamente, às vezes de forma camuflada, dissimulada.

Em vez de simplesmente reprimir, o ideal é que o educador aprenda a corrigir, o que significa ensinar a eliminar o erro e propiciar o acerto. Isso implica educar para a vida, e não para o momento. Implica ter segurança daquilo que se ensina, visando, acima de tudo, ao bem do educando, e não ao seu bem-estar imediato.

A verdadeira correção deve ser feita com afeto e com o sincero empenho de ajudar. Por outro lado, são duas psicologias que estão em jogo: a de quem ensina e a daquele que recebe a correção. É indispensável, pois, um conhecimento dessas duas psicologias.

Em um clima de afeto, na certeza de se estar ao lado da criança e não contra ela, é possível fazê-la pensar, para que surja a vontade de mudar, fator indispensável, pois é ela mesma quem, de fato, fará culminar o processo da correção. A criança é quem se corrige, com os elementos e recursos postos à sua disposição. O educador poderá ensinar, aconselhar, encaminhar, exigir, mas a verdadeira correção só se inicia no momento em que ocorre a compreensão do erro, a vontade de mudar e, completando o quadro, a compreensão clara da conduta certa a ser adotada.  Assim, mais do que dizer “não faça isto” é preciso possibilitar que o educando saiba a forma correta de se comportar.

Há aspectos básicos que, segundo a Pedagogia Logosófica, fundamentam a atuação acertada no processo de correção da conduta de uma criança, seja quem for o educador da vez. Dentre esses aspectos, destacaremos aqui os seguintes:

A orientação da criança é, acima de tudo, responsabilidade dos próprios pais. Quando são muitos os que a educam, sem que entre eles haja a devida unidade de pensamento e ação, a criança se torna caprichosa, manhosa. A escola entra como complemento dessa orientação, como importante auxiliar. Os pais, ainda que muito ocupados no atendimento às exigências profissionais, não podem delegar a outros essa tarefa que a própria vida lhes confiou. Se o ideal for difícil de cumprir, que se cumpra o máximo que lhes for possível.

À criança devem ser dados conceitos reais, evitando tudo que é falso. Isto facilita correções no futuro. É importante propiciar que as crianças adquiram bons hábitos e que queiram ser boas. Evitar, também, tudo o que estimule a violência: brincadeiras, brinquedos, revistas, filmes, jogos, etc. Quando o assunto são os desvios, também vale a fórmula do mais vale prevenir que remediar.

Para a educação de uma criança, é imprescindível que lhe sejam transmitidos conceitos reais do que é o homem, do que é Deus e suas Leis, do que é o Universo. Os conceitos formados ao longo da vida são os orientadores da conduta. É importante que os educandos cresçam gostando da boa conduta, que se sintam felizes e estimulados, que não tenham vergonha de ser obedientes aos princípios de disciplina e de bem, sendo cumpridores, generosos, gratos, etc.

É importante saber corrigir os caprichos da criança, não atendê-los. O excesso de consentimento e de tolerância faz a criança sentir gosto em suas exigências, e, por esse caminho, essas exigências crescem até se converterem em caprichos. Por isso, não se deve mimar a criança nem atender seus caprichos. Permiti-los costuma ser a via de formação de um futuro ditador. Devemos, sim, dar amor e amparo à criança, mas sempre dentro do natural, e aplaudir sempre suas ações boas, valorizando seus acertos, ainda que pequenos.

A criança deve viver, dentro do possível, num ambiente tranqüilo, de alegria. Alegria que não significa agitação nem euforia. Quantas vezes pode-se ensinar brincando! A alegria deve ser tal qual uma música de fundo na vida do educando, para que ele seja incentivado a pensar e desenvolver, sem pressões, seu potencial hereditário, muitas vezes adormecido por falta de estímulos.

Antes de corrigir, escutar. Parece algo tão simples, mas exige do educador consciência na hora de atuar. A impulsividade leva, freqüentemente, a um exagero na reação diante do erro do educando, sem se ouvirem antes suas razões.

Diálogo. Conversar não é sinônimo de monólogo. Conversar constantemente vai criando confiança. O educando tem de saber que tem o direito de perguntar sempre que não entender por que deve fazer isto ou aquilo. Deve aprender a obedecer inteligentemente, questionando, sim, mas não mais do que o neces- sário; a argumentação tem de ser respeitosa, e a palavra final da autoridade tem de ser acatada.

Quando a criança comete um erro, fica evidente que ela necessita de uma explicação, que deve chegar ao seu entendimento, e o educador tem de ter segurança do que transmite.

A correção afetuosa e amiga não constrange, não expõe a criança. Principalmente no caso de uma falta mais grave, é preciso que a criança esteja sozinha no momento da correção. (Se possível, nem mesmo outros adultos deverão estar presentes.) Esquecer isso é incorrer numa ação que deprime e humilha a quem recebe a correção. Nesse ambiente de confiança, é possível que o educando pense, reflita, para que ele mesmo, ajudado pelo docente, queira e enxergue a melhor forma de agir.

É de todo recomendável uma enérgica doçura. Muitas vezes, será preciso também usar da energia para corrigir a criança, mas a energia sem violência, usada com a consciência de que se está fazendo o melhor para o filho, para o aluno. É a enérgica doçura, que não pressiona ninguém, que estimula a fazer. Usar esta técnica exige, por parte de quem educa, um controle dos próprios pensamentos: ser sereno, ter tato, ser firme, medir o tom de voz… O afeto nos faz dar, após uma correção às vezes severa, uma palavra doce de compreensão e carinho, para que os raciocínios feitos penetrem e se fixem. Depois do remédio amargo, quem não aprecia uma bala docinha.

É importante saber esperar o resultado. A mudança na conduta sempre exige um processo, e esse processo exige um tempo, maior ou menor. Evidentemente, em nenhum caso deverá ser uma espera excessiva.

Elimina-se o erro com o acerto. A criança precisará saber, bem sabido, que vai experimentar muito mais satisfação fazendo o bem do que fazendo o mal. Comisso,aprenderá a ser valente, a enfrentar os erros, a não escondê-los ou dissimulá-los, a buscar o acerto. A boa colocação do educador diante do erro da criança infundirá nela confiança ante o futuro.

Como se vê, “a arte de educar consiste em começar ensinando primeiro a si mesmo”. É uma arte envolvente, complexa e profunda. Incidem nela vários fatores. Os educadores são diferentes entre si. Cada criança é única. Não há normas rígidas a serem seguidas, mas há fundamentos essenciais a serem considerados.

Os elementos aqui expostos representam uma parte apenas da ampla concepção da Pedagogia Logosófica. Não são – fica claro! – aplicados isoladamente. Misturam-se e complementam-se na aplicação diária e objetivam formar um ser humano feliz e consciente de sua responsabilidade diante da própria vida e diante da sociedade em que vive.

 

Dulce Regina Feu Alvim Moreira

Bacharela e licenciada em Letras, Línguas Neolatinas pela UFMG

 


 
 

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